Redação #920122
Ao afirmar que "o homem é um ser político e está em sua natureza viver em sociedade", Aristóteles busca explicar que a convivência entre seres humanos é imprescindível para a manutenção de uma sociedade feliz. De forma consoante ao princípio do homem social de Aristóteles, a sociedade como um todo se viu obrigada a mudar radicalmente seu estilo de vida, já que a pandemia do coronavírus tornou inviável que as manifestações culturais e as rotineiras atividades laborais continuassem a ocorrer como de costume. Entretanto, o aparente distante fim das restrições causadas pela crise sanitária fez com que as atividades prejudicadas tivessem que ser reformuladas, originando, apesar de todas as adversidades da mudança repentina, alternativas frutuosas aos que foram capazes de moldar a execução de seu trabalho, mas poucas oportunidades aos que tentavam a sorte na cena da arte.
Apesar de ser um animal de caráter social, o ser humano também tem a resiliente capacidade de se adaptar a qualquer que seja o ambiente; festas e exposições enormes, que antes contavam com o alto custo de produção e público limitado, deram origem a videoconferências de custo extremamente barato, sem necessidade de ambientação e sem limite físico de espectadores. Experiências que antes só eram garantidas àqueles que tinham condição de acesso, seja como artista ou como espectador, agora necessitam apenas de uma conexão estável com a internet e um computador razoável para hospedar a transmissão.
Entretanto, a atração do público por essas alternativas logo demonstrou ser breve, e atuando quase como uma lembrança nostálgica de como as coisas costumavam acontecer. Os que tinham a assistência necessária perto para se moldar a rotina de movimentos artísticos no contexto de pandemia, conseguiram manter seu público engajado e suprir parte da renda de shows e eventos que é normalmente a principal receita desses artistas. Essa parcela que teve o luxo de se manter de pé mesmo frente a tantas adversidades, é composta por artistas que já colhiam os frutos de seu trabalho e em sua maioria, já obtinham renda pela internet antes.
De outra perspectiva, no entanto, a outra parcela, de indivíduos que tentavam a carreira na música, por exemplo, ou já eram estabelecidos como artistas, porém de forma independente, tiveram suas vidas radicalmente prejudicadas pelas restrições impostas pelo governo estadual, sem shows, sem eventos, sem batalhas de rima e sem festas, essas importantes figuras para o desenvolvimento da arte 'underground' no Brasil, se viram sem opções, senão deixar seus sonhos e seu principal trabalho em segundo plano, procurando, muitas vezes, empregos que eram oferecidos sem os direitos garantidos pela CLT. Essa problemática resulta, em suma, no aumento da segregação socioeconômica, e reafirma o monopólio da cena artística, que é historicamente controlada pela elite do Brasil.
É, portanto, dever do Ministério da Cultura, garantir formas de sustentação a esses trabalhadores do setor cultural, que são responsáveis por cerca de 2,6% do PIB no Brasil, a partir de medidas de incentivo, conforme deveria também ser proposta pela mesma, alternativas de acesso ao lazer a população, integrando os prejudicados pela pandemia, seja como espectador ou como trabalhador. É, também, dever dos cidadãos que se encontram em uma situação mais confortável nesse momento, fazer sua parte pelos artistas desamparados: Apoiando-os, por meio de programas de financiamento coletivo e divulgando os artistas independentes, a fim de descentralizar o monopólio cultural e limitar os prejuízos causados a essa população pela pandemia do novo coronavírus.