Redação #2601674
Nota-se que, de maneira análoga às rochas sedimentares, as quais se consolidam ao longo do tempo por meio de pequenos processos de solidificação, a medicalização na sociedade configura-se na condição de um problema que se instaurou no país em razão de sucessivos acontecimentos, como a partir do avanço da indústria farmacêutica, que possibilitou o tratamento em cápsulas de diversas doenças, mas provocou o uso desenfreado de medicações sem prescrição médica. Não obstante, verifica-se a consolidação dessa vigente problemática, tanto em virtude da constante negligência educacional quanto devido à banalização social, cuja inação fez com que fossilizasse tal impasse.
A princípio, é mister salientar como o sistema educacional impede o combate à medicalização. À luz da concepção do educador Anísio Teixeira, defende-se que,por meio da educação, deve haver uma capacitação do aluno para que ele seja um agente crítico e transformador da sociedade. Todavia, essa premissa não é efetivada, uma vez que o modelo tradicional pedagógico, sobretudo em regiões periféricas, adota uma estrutura curricular defasada, a qual foca apenas em um conjunto programático básico e negligencia o debate acerca da autonomia emocional que um jovem precisa ter na vida adulta, pois a rotina laboral impulsiona, muitas vezes, o uso de medicações para reduzir o estresse excessivo do trabalho. Diante dessa conjuntura, a civilização não é transformada e, por causa do uso descontrolado de cápsulas para desestressar dos problemas do cotidiano, o vício aparece, impossibilitando o jovem de enfrentar o problema de frente e terceirizando, dessa forma, a solução.
Além disso, deve-se discutir a respeito da passividade coletiva. Segundo a jornalista Eliane Brum, em seu artigo "A boçalidade do mal", o corpo social, como fruto de uma ignorância coletiva, perdeu sua humanidade no instante em que muitos cidadãos passaram a banalizar diversos problemas sociais. Nesse viés, percebe-se que essa ideia ainda se faz presente no Brasil, dada a banalização social da medicalização. Isso pode ser afirmado, pois muitos atletas,usando a má fé, utilizam substâncias cada vez mais imperceptíveis para terem vantagem esportiva. Essa atitude conformista, um exemplo de ignorância criticado por Brum, ocorre em razão de uma normalização do desejo do indivíduo de ser sempre o melhor no esporte, buscando meios alternativos (não éticos) para atingir a classificação. Desse modo, verifica-se a trivialização entre os cidadãos comuns do uso de pílulas para o aumento do desempenho cognitivo e físico, haja vista que, por ser um assunto em alta na mídia, muitos civis pesquisam sobre remédios similares para aumentar a eficiência cerebral, aderindo à sua rotina.
Portanto, medidas são necessárias para contornar os desafios para o enfrentamento da medicalização. Para isso, o Ministério Público, responsável pela formação cidadã, deve promover discussões sobre a autonomia emocional de jovens. Tal ação deve ocorrer por intermédio da reformulação da Base Nacional Comum Curricular, a fim de instruir a sociedade quanto ao combate dessa cultura retrógrada. Ademais, os cidadãos devem promover camapnhas exigindo maior fiscalização de pílulas de desempenho.Essa medida deve acontecer por meio de redes sociais, como o Instagram, com o intuito de diminuir a banalização social. Somente assim, dessolidificar-se-á esse impasse consolidado ao longo dos anos no Brasil.