Redação #2601597
O livro de Brit Bennett, "A metade perdida", aborda a história de Stella, uma mulher negra que adota comportamentos estereotipados dos brancos para não sofrer preconceito e conseguir usufruir de certos privilégios sociais. Fora da ficção, no cenário brasileiro, a cor da pele carrega historicamente significados de segregação e de desigualdade,fatores os quais favoreceram a sobreposição de oportunidades para certas raças que detinham uma posição social dominante capaz de ditar as normas segundo os seus interesses. Nesse sentido, um contexto de raízes segregacionistas possibilitou a disseminação do racismo para as instituições, propiciando, assim, a permanência da discriminação.
Sob esse viés, o passado colonialista, de caráter exploratório e racista, traz impactos na contemporaneidade no que se refere a segregação socioespacial e negação de direitos às minorias. No filme "Estrelas além do tempo", três mulheres negras são contratadas para trabalhar no centro de pesquisas da NASA, mas sofrem constante discriminação por seus colegas de trabalho, que são, em sua maioria, homens brancos. De maneira análoga, na realidade brasileira, a distinção social associa-se aos papéis de dominação ocupados, principalmente, pelo sexo masculino, expondo que fatores, como a raça e o gênero, tem sido, muitas vezes, priorizados em detrimento da capacidade e do esforço. Dessa forma, as instituições caracterizam-se pela homogeneidade social, que discrimina negros, subalternizando-os a ocupações socioeconômicas e profissionais inferiores.
Além disso, o racismo velado apresenta-se cada vez mais enraizado socialmente, o que favorece a constante negligência estatal com a sua disseminação em instituições sociais. Na série "Olhos que condenam", cinco jovens negros são acusados injustamente de um crime hediondo, sendo também forçados por policiais a se declararem culpados. Analogamente, no Brasil, a associação da pessoa negra ao estereótipo de criminoso reflete os efeitos do passado escravista, que vinculava a falta de civilidade a certas raças consideradas, pelos europeus, como inferiores. Nesse sentido, entende-se a continuidade dessa prerrogativa pelo fato de que os negros ainda são as principais vítimas de homicídio como também a maioria populacional em presídios. Com isso, a discriminação racial apoia-se na ignorância do Estado com a problemática desigualdade que enraíza o preconceito e diferencia grupos sociais.
Portanto, um contexto histórico de difícil reparação social, como a escravidão, explicita uma realidade contemporânea em que a cor da pele ainda é usada como mecanismo para segregação. Dessa maneira, o Ministério da Educação, responsável pela gestão do sistema de ensino, deve promover a criação de políticas públicas que incentivem a representatividade para a desmistificação de preconceitos e de estereótipos, por meio de cartilhas que informem sobre a necessidade das ações afirmativas para a desconstrução do racismo institucional, a fim de que a sociedade brasileira seja capaz de transformar a diversidade em uma ferramenta de inclusão e de reparação concreta das dívidas históricas com os negros. Somente assim, o cenário vivido por Stella não ocorrerá no país.