Redação #2600849
O educador brasileiro, Paulo Freire, defende que, "se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda". Contudo, a expansão do ensino a distância no Brasil caminha na contramão desse ideal , uma vez que suas consequências escancaram profundas fragilidades estruturais, pois o implementação desse modelo esbarra em desafios complexos que comprometem a democratização do conhecimento. Dessa forma, torna-se importante analisar a exclusão digital que marginaliza os estudantes de baixa renda, bem como os impactos na saúde mental dos jovens privados do ambiente escolar físico.
Nessa perspectiva, é de suma importância apontar a exclusão digital que prevalecem em estudantes em condições precarias, fato que marginaliza a educação à esse grupo. Nessa ótica, o sociólogo Pierre Bourdieu, afirma que as instituições de ensino tendem a perpetuar as desigualdades por meio da exigência de um "capital cultural", que engloba desde o domínio linguístico até o acesso a ferramentas materiais de aprendizagem. Nesse sentido, ao transferir o ambiente de estudo para o doméstico, o EaD pressupõe, erroneamente, uma uniformidade de condições estruturais entre os jovens, o que configura uma forma de violência simbólica, visto que cobra o mesmo rendimento de estudantes com realidades precarias de acesso à internet e computadores. Como consequência, em vez de atuar como vetor de democratização ao ensino, o modelo remoto culmina na exclusão digital e na reprodução social da pobreza.
Outrossim, é crucial pontuar que o isolamento imposto pelo ensino a distância reverbera de forma drástica na saúde mental dos estudantes. Desse modo, na série "Atypical", o cotidiano dos personagens evidencia como o ambiente escolar físico é um espaço indispensável não somente para o aprendizado técnico, mas para o desenvolvimento socioemocional, a criação de vínculos e o suporte psicológico dos estudantes. Entretanto, a implantação do ensino virtual no Brasil camufla a ausência desse fator, visto que a substituição do convívio social por exaustivas horas de tela fomenta um quadro de solidão crônica, o que aumenta os diagnósticos de ansiedade, depressão e estresse acadêmico entre os estudantes brasileiros. Assim, por ficarem desprovidos da rede de apoio presencial que a comunidade escolar tradicionalmente oferece, a negligência com o bem-estar psíquico no modelo remoto perpetua um cenário de adoecimento infantojuvenil.
Depreende-se, portanto, que as consequências do ensino a distância no cenário brasileiro são a marginalização da sociedade carente, pela desigualdade social, e os impactos na saúde mental dos jovens, pela carência do convívio social. Dessa maneira, para reverter esse cenário caótico, o Governo, por meio do Ministério da Educação e em parceria com o Ministério das Comunicações, deve promover a democratização digital e o amparo psicológico nas redes de ensino, por meio do direcionamento de verbas públicas para a distribuição de dispositivos eletrônicos com acesso à internet para alunos vulneráveis, além da implementação de núcleos de apoio psicossocial presenciais nas escolas polo, com o objetivo de acolher os estudantes afetados pelo isolamento do EaD. Desse modo, será possível permitir que a educação execute o seu papel transformador, assim como idealizado por Paulo Freire.