Redação #2600739
Em suas reflexões, o sociólogo alemão Karl Marx analisou como a sociedade capitalista prioriza o rendimento financeiro em detrimento dos valores. Por analogia, esse pensamento pode sintetizar os desafios para o enfrentamento à medicalização da vida cotidiana na sociedade contemporânea brasileira, haja vista os obstáculos encontrados em deter uma cultura de medicar cada área da vida numa sociedade cuja indústria de medicamentos é extremamente lucrativa. Inegavelmente, esse quadro é fruto da busca pelo lucro com a comercialização de medicamentos que se sobrepõe à necessidade de garantir o bem-estar real das pessoas. Assim, dentre os fatores que contribuem para aprofundar essa problemática, pode-se destacar a compreensão normativa inerente à sociedade de que ser saudável é sinônimo de estar apto à produtividade ininterrupta e a influência da mídia mercadológica ao bombardear os meios de comunicação com propagandas de medicamentos.
Em uma primeira análise, a normatividade social de saúde como sinônimo de produtividade cristalizada por um modelo econômico que prioriza lucrar com medicamentos ao invés de promover bem-estar cria empecilhos para combater à medicalização da vida cotidiana no Brasil. Essa conjuntura ocorre porque em uma sociedade de moldes capitalistas como a brasileira a mentalidade de produção se infiltra em todos os âmbitos da vivência humana, de modo a solidificar a compreensão de que estar saudável é ter aptidão para produzir. Consequência desse panorama é o aumento expressivo no uso de medicamentos voltados a aumentar os desempenhos físico, intelectual, sexual, entre outros, mesmo quando não há a necessidade real dessa utilização. Exemplo claro dessa situação é a pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina em 2020 com estudantes de graduação e pós graduação, segundo a qual 16,7% dessa população fazia uso de medicamentos com o intuito de melhorar a performance intectual.
Ademais, a mídia mercadológica das propagandas de medicamentos alicerçada em uma mentalidade de mercado que visa o lucro acima da saúde real engendra dificuldades para frear o uso indiscriminado dessas substâncias na vida cotidiana da sociedade contemporânea brasileira. Esse cenário acontece porque em uma sociedade guiada por interesses de mercado, tais como os da indústria de medicamentos, as empresas midiáticas estão a serviço desses interesses e demonstram isso ao utilizar suas plataformas para veicular propagandas de medicamentos com imposições narrativas por meio de escolhas vocabulares específicas para despertar no público a necessidade de um benefício proporcionado por um determinado medicamento. Nesse sentido, esse quadro está em conformidade com o conceito de "Habitus", do sociólogo francês Pierre Bordieu, segundo o qual as visões sociais são determinadas pelas agências, como a mídia, uma vez que a mídia mercadológica, ao se utilizar da propaganda, atua como agente determinador da visão social em adquirir medicamentos.
Em suma, é indubitável que a sobreposição da busca pelo lucro em detrimento da necessidade de garantir o bem-estar real das pessoas é o cerne dos desafios para o enfrentamento da medicalização da vida cotidiana na sociedade contemporânea brasileira. Portanto, para solucionar essa questão, faz-se necessário que o Governo Federal crie um Plano Nacional de Enfrentamento à Medicalização Indiscriminada, por meio de um projeto de lei a ser votado no Congresso, que estabeleça diretrizes, diagnósticos, objetivos e metas para políticas públicas voltadas a regulamentar a propaganda e comercialização de medicamentos no Brasil e promover a saúde da população por meio da hábitos saudáveis como prática de exercícios físicos e higiene do sono, com a finalidade de a longo prazo diminuir o uso irrefreado de medicamentos sem real necessidade na vida cotidiana. Desse modo, poderá ser possível alcançar uma sociedade que substitua a medicalização da vida pelo verdadeiro bem-estar dos indivíduos.