Redação #2595086
Na época do Renascimento, corpos com mais gordura eram mais bem vistos nas sociedade, pois eram sinônimo de poder aquisitivo para comprar alimentos; hoje, corpos mais magros e torneados são os mais bem vistos, por denotarem disponibilidade de dinheiro e tempo para investir em academias e alimentação saudável, mais cara que a os ultraprocessados. Esse fenômeno ocorre porque, em uma sociedade capitalista, quem dita os padrões de beleza é o estilo de vida das elites, e a tentativa das massas de alcançá-lo por vezes gera frustração, doenças e até a morte. Assim, dentre os fatores que contribuem para aprofundar essa problemática, pode-se citar a normatividade social do que é considerado ou não belo e a atuação das redes sociais como promotor de comparação e busca incessante por validação.
Em uma primeira análise, as normas sociais do que é beleza cristalizadas pelos padrões criados pelas classes dominantes contribuem para a manutenção da ditadura da beleza no Brasil. Esse quadro se dá porque diversos setores da sociedade costumam privilegiar e tratar de forma mais positiva pessoas que exibam carcterísticas pertencentes aos padrões de beleza estabelecidos, o que estimula os indivíduos a imprimirem esforços para se enquadrar nesses padrões. Nessa perspectiva, tal análise está em conformidade com as ideias da filósofa Judith Butler, para quem a normatividade dita quais corpos são considerados legítimos e marginaliza aqueles que fogem do padrão, uma vez que ao cultuar corpos considerados dentro do padrão, a sociedade coloca à margem aqueles que não se encaixam.
Ademais, o advento das redes sociais na internet em uma sociedade guiada por padrões físicos elitistas agravaram a ditadura da beleza. Essa conjuntura consolidou-se porque os algoritmos das redes sociais estimulam uma intensa comparação entre as pessoas e a necessidade de validação por meio de "likes", o que, no contexto dos padrões de beleza, pode levar os indivíduos a atitudes cada vez mais perigosas nessa busca incansável por ser visto como pessoa bonita, a exemplo das subcomunidades na internet dedicadas a estimular transtornos alimentares em seus membros. Nesse contexto, tal pensamento corrobora com as reflexões do filósofo Byung-Chul Han, para quem o indivíduo se torna o próprio produto nas redes sociais, buscando validação e e gerando adoecimento, uma vez que essa demanda por validação da aparência como bela perante os outros nas redes sociais é capaz de impactar a saúde mental e física.
Em síntese, é evidente que a imposição dos padrões criados pelas elites mantém a ditadura da beleza no Brasil. Portanto, para mitigar essa problemática, cabe ao Governo Federal criar um Plano Nacional de Promoção à Saúde Psicoemocional, por meio de um projeto de lei a ser votado no Congresso, que, dentre outras iniciativas, inclua na Base Nacional Comum Curricular aulas e leituras sobre o impacto da busca por padrões de beleza inatingíveis na saúde mental e física, bem como o papel das redes sociais nesse cenário, com a finalidade de instigar desde cedo nos jovens uma reflexão crítica acerca do tema. Dessa forma, aos poucos, poderá ser construída uma sociedade em que cada vez menos pessoas sofram as consequências uma ditadura invisível e umas busca ilusória.