Redação #2454747
Em Turma da Mônica, consagrada série brasileira de gibis, o personagem Chico Bento, criado em um local rural, é frequentemente motivo de riso e constrangimento pela sua forma de falar, diferentes dos personagens que vivem na cidade. De maneira análoga, no Brasil, existe uma enorme variedade linguística, marcada por gírias e sotaques específicos em cada região, resultado da grande extensão territorial e consequentes diferenças culturais. No entanto, muitas dessas variações são estigmatizadas, sob influência de grupos socialmente privilegiados. Assim, percebe-se que o preconceito linguístico tem origem na desinformação acerca da pluralidade do povo brasileiro, sendo agravado pela marginalização de produções culturais.
Sob essa perspectiva, é nítido que a ausência de conhecimento sobre a diversidade brasileira contribui severamente para o preconceito linguístico. Isso acontece porque a maioria dos indivíduos com elevado nível de escolarização reconhece apenas a norma-padrão como o uso eficiente da Língua Portuguesa - visto ser o aprendido em instituições de ensino -, desconsiderando variações decorrentes de diferentes contextos sociais. Tal cenário conduz à perpetuação do desprezo em relação a indivíduos com menor ou nenhum acesso à educação, que são entendidos como pouco inteligentes por utilizarem a língua de uma maneira diferente da gramaticalmente correta. Entretanto, segundo o gramático brasileiro Evanildo Bechara, a língua é viva e dinâmica, sendo constantemente reinventada pelos falantes, de modo a agregar para a identidade cultural do povo. Logo, o uso popular não deve ser ridicularizado, ao contrário, deve ser complementar ao ensino da norma culta.
Ademais, historicamente há uma marginalização da produção cultural periférica que, por seguir as variações de suas regiões de origem, como gírias, tem sua qualidade menosprezada. Nesse contexto, o rapper brasileiro Emicida afirma que a norma culta é elitista, usada para segregar, comumente desconsiderando o racismo estrutural no acesso ao ensino, resultando em preconceito linguístico. Sob essa ótica desigual, é incoerente esperar que todos os brasileiros se comuniquem de modo igual, devido às diferenças acerca das circunstâncias socioculturais e dos espaçoes educacionais em que estão inseridos, o que gera cidadãos com discrepantes níveis de conhecimento acerca da Língua Portuguesa. Segundo o cantor, a fala coloquial é rica em regionalismos, representando uma importante forma de identidade e criando noções de pertencimento essenciais para a vivência em comunidade. Logo, é preciso compreender que as variações linguísticas são uma forma legítima de comunicação social, não inferior à norma-padrão.
Portanto, torna-se urgente combater o preconceito linguístico no Brasil, bem como suas consequências. Para isso, é importante que veículos midiáticos como estações de rádio e emissoras de televisão, grandes agentes de difusão cultural e de formação da opinião pública, ampliem o acesso à cultura periférica, através da inclusão, na programação, de variados gêneros musicais, abrangendo o funk e o rap. Isso possibilitará a redução do estigma à arte periférica. Também é necessário que as escolas implementem, com o financiamento do Ministério da Cultura, projetos abordando as múltiplas formas de expressão por meio de uma mesma língua, expandindo o conhecimento acerca da pluralidade brasileira e, consequentemente, a valorização das variedades da língua. Assim, é possível avançar de forma efetiva no combate ao preconceito linguístico no Brasil.