Questão 26 - UnB - PAS 2021/2
O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras “disciplina e ordem” repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabeça e logo o oficial imediato, um louro, de bigode, começou a leitura do Código na parte relativa a castigos corporais. A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silenciosa, com um vago respeito no olhar, aquele repisado capítulo do livro disciplinar, em pé, à luz dura e mordente do meio-dia, enquanto o oficial do quarto, gozando a sombra reparadora de um largo toldo estendido sobre sua cabeça, ia e vinha, de um bordo a outro bordo, sem se preocupar com o resto da humanidade. Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, o instrumento de castigo: era o guardião Agostinho, o célebre guardião Agostinho, especialista consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiães, e cujo zelo em coisas de “patescaria” tornara-se proverbial. Nos momentos de manobra difícil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente munido de um apito de prata, não se afastando nunca de suas obrigações.
— Caboclo macho! diziam os companheiros.
Meio-dia quase e ainda não estava acabado o castigo. Seguia-se o terceiro peso, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada, e cuja presença ali, naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa, — o Bom-Crioulo na gíria de bordo. — Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e no semblante. Houve um sussurro longínquo, um leve, um tímido murmúrio nas fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de um teatro nas mutações de cenário. Agora a coisa era outra, na verdade. O Herculano e o Santana, de resto, não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis marinheiros que dificilmente aguentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns criançolas!... Queria-se ver o Amaro, o célebre, o terrível Bom-Crioulo. Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e cadenciada de ofício religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida: — Sabe por que vai ser castigado?
Adolfo Caminha. O Bom-Crioulo. Internet: www.dominiopublico.gov.br.
Tendo como referência inicial o fragmento de texto precedente, extraído do romance O Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, bem como o poema Sonho africano, de Francisca Júlia, julgue o item.
No fragmento do romance apresentado, de Adolfo Caminha, a descrição de Agostinho e de Amaro concentra-se
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