Questão 2 - Fundatec Administração 2019
O medo de enxergar a verdade provoca a força da ignorância
Permanecer ou sair da caverna? Uma questão que atravessa a história desde que os homens
se compreendem como homens. É melhor desfrutar de uma realidade fantasiosa, mas confortável,
ou vivenciar a verdade com toda a sua dureza? Viver como sujeito consciente tem um alto preço
psicológico. No próprio mito da caverna, percebemos que os homens tendem a preferir se
[05] contentar com as sombras do que conhecer o lado de fora, afinal, por mais falsas que as sombras
sejam, elas estão sob a proteção constante das rochas da caverna, o que significa que, ao decidir
sair, não há mais volta, pois as rochas, que o olhar de servo entende como de proteção, para os
que despertam, representam aprisionamento.
O desconhecido magnetiza pelo medo. Dessa forma, na maior parte das vezes, preferimos
[10] permanecer onde estamos, por mais adversa que a situação seja, uma vez que o velho goza do
benefício do conhecimento e da permanência, o que o torna menos temido do que o novo, o qual
ainda não se conhece e não se sabe o que cobrará de nós. Dito de outro modo, ainda que a
situação que vivenciamos seja adversa, tendemos ao comodismo pelo medo do que ainda não se
conhece e, portanto, pode ser pior do que o que já se vivencia. Esse comodismo ou complacência,
[15] entretanto, não se restringe ao medo do desconhecido, mas também à própria falta de vontade
em esforçar-se para que a condição seja modificada. Não é à toa que vivemos na era da servidão
voluntária.
No entanto, se vivemos em um mundo “fantasioso”, não é possível que a alcunha de “era da
servidão voluntária” possa ser exposta de maneira clarividente. É necessário que ela seja
[20] transformada, ou melhor, ressignificada, e, assim, a servidão voluntária se transforma em
admirável mundo novo, lugar em que a técnica, com todo o seu esplendor, consegue suprir todas
as necessidades humanas. Evidentemente, as revoluções técnicas que aconteceram trouxeram
importantes conquistas, descobertas e aperfeiçoamentos que tornaram a nossa vida melhor em
vários aspectos. Contudo, o passado nos mostra que entre a real capacidade dessas revoluções e
[25] o que dela se extrai (e como se extrai) há um grande abismo. Sendo assim, a nossa realidade se
aproxima muito mais das grandes distopias do século XX do que de um éden 3D.
Apesar de não ______ condições próprias para que haja um despertar do indivíduo da sua
situação de ignorância, é imperioso que se entenda que o modo hierárquico da sociedade não se
modificará de cima para baixo, de tal forma que é necessário a cada indivíduo, dentro das suas
[30] oportunidades, tentar buscar pontos de luz que o ajudem a encontrar a saída da sua ignorância e,
por conseguinte, da sua condição escrava. Se o desconhecido magnetiza pelo medo, é apenas o
conhecimento e a liberdade que nos permitem __________, sabendo que todo aquele que
desperta sempre apontará para as correntes daqueles que permanecem presos. Todavia, também
devemos ter em mente que muitos, por mais oportunidades que recebam, irão preferir
[35] permanecer na sua ignorância, na caverna, na Matrix ou qualquer palavra que representa o
antônimo da liberdade, pois o estado de espectador é sempre mais cômodo, já que sempre há
pipoca e refrigerante suficientes para manter os explorados de boca fechada.
Assim sendo, levantar do cinema, ser um selvagem ou tomar a pílula vermelha continuam
sendo atos de coragem, espalhados e diminutos, pois como disse Nietzsche: “Por vezes as
[40] pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas”.
Entretanto, é necessário destruir as nossas belas e confortáveis ilusões para que possamos ser
sujeitos autônomos e livres, porque é o medo que possuímos da verdade que provoca a força da
ignorância e permite o nosso controle.
Texto adaptado especialmente para esta prova. Disponível em https://www.contioutra.com/o-medo-deenxergar-verdade-provoca-forca-da-ignorancia/. Acesso em 8 Jan 2019.
Na frase “Não é à toa que vivemos na era da servidão voluntária” (l. 16 e 17), temse a locução adverbial “à toa”, que recebe acento indicativo de crase.
Assinale a locução adverbial que está grafada INCORRETAMENTE, por não receber acento indicativo de crase.
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