Questão 1 - FADESP Administração 2011
COM BASE NA LEITURA DO TEXTO ABAIXO, ASSINALE A ALTERNATIVA QUE COMPLETA CORRETAMENTE A QUESTÃO.
Estou sempre a vê-la nos seus gestos, na sua voz, no seu riso de corajosa alegria. Tão
clara em tudo que dela vinha; tão brancos os seus dentes e o seu corpo; só nos cabelos negros
o contraste parecia apontar mundos desconhecidos.
Há muito a perdi. Por que não dizer que isso aconteceu no momento em que dela mais
[05] precisava? Fizera quinze anos, ia ser arrastada pelo redemoinho de sonhos, mas com ela
aprendera tanto e tão bem a alegria e a coragem, que tive forças para continuar sozinha pela
vida afora. Em quantos momentos dela precisei? Seria tão bom vê-la envelhecer a meu lado, à
medida que eu envelhecesse também.
Quando nasci, ela contava apenas vinte anos e era linda. Quando a conheci melhor,
[10] éramos da mesma idade. Nunca esquecerei seu encontro com a morte, aos trinta e cinco anos,
o mesmo grande sorriso, a mesma imensa alegria de viver. Mandou que eu parasse junto à
porta de seu quarto:
- Fica assim.
- Para quê?
[15] - Bobagens de gente que está morrendo. Se houver outro mundo, como dizem,
entrarei nele com teu último retrato.
Nunca mais soube dela. A morte cavou entre nós duas a irremediável separação. Mas
não impediu que eu a encontre sempre, sempre: nos livros que ela me ensinou a amar (“Não
há livros imorais” – dizia), no combate à minha vaidade: quando fiz oito anos realizei uma coisa
[20] boba que julguei um conto. Ela aconselhou: “quando copiares, faze com menos erros na
ortografia”, e convenceu-me de que todo mundo é capaz de escrever contos.
Encontro-a até hoje nas suas lições de coragem:
- O sofrimento é coisa para gente fraca; os fortes são como soldados, não choram, não
gemem, têm força de vontade, coragem.
[25] Ensinou-me a não admitir diferenças sociais:
- Todos são iguais; todos nascem do mesmo jeito; só muda o ambiente. Todos têm pai e
mãe. Ninguém tem culpa de nascer pobre.
Riscou em nós preconceitos raciais:
[30] - Pretos e brancos são iguais. Procurando bem, todos nós temos um pouquinho de
sangue negro.
Mais, muito mais: empenhava-se em desvendar os segredos da vida e da morte,
afirmando sempre: “mistérios não há”. [...]
Carrego-a comigo como um troféu; amo-a tanto que tenho ainda hoje muitas vezes
[35] vontade de repetir uma frase de minha infância. “Mamãe, conta uma estória”.
Entre nós nem a morte conseguiu destruir ensinamentos: lealdade, honestidade, tantos
outros. Minha mãe também foi grande professora de coragem, e só isso me bastaria para
louvá-la toda a vida.
MORAES, Eneida de. Aruanda. Belém: SECULT, 1989, p. 55.
O texto de Eneida de Morais poderia ter o seguinte título:
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