Questão 4 - FADESP Administração 2015
Leia o texto abaixo para responder a questão.
Coragem
“A pior coisa do mundo é a pessoa não ter coragem na vida”. Pincei essa frase do relato
de uma moça chamada Florescelia, nascida no Ceará e que passou (e vem passando) poucas e
boas: a morte da mãe quando tinha dois anos, uma madrasta cruel, uma gravidez prematura, a
perda do único homem que amou, uma vida sem porto fixo, sem emprego fixo, mas com sonhos
[05] diversos, que lhe servem de sustentação.
Ela segue em frente porque tem o combustível que necessitamos para trilhar o longo
caminho desde o nascimento até a morte. Coragem.
Quando eu era pequena, achava que coragem era o sentimento que designava o ímpeto
de fazer coisas perigosas, e por perigoso eu entendia, por exemplo, andar de tobogã, aquela
[10] rampa alta e ondulada em que a gente descia sentada sobre um saco de algodão ou coisa
parecida.
Por volta dos nove anos, decidi descer o tobogã, mas na hora H, amarelei. Faltou
coragem. Assim como faltou também no dia em que meus pais resolveram ir até a Ilha dos
Lobos, em Torres, num barco de pescador. No momento de subir no barco, desisti. Foram meu
[15] pai, minha mãe, meu irmão, e eu retornei sozinha, caminhando pela praia, até a casa da vó.
Muita coragem me faltou na infância: até para colar durante as provas eu ficava nervosa.
Mentir para pai e mãe, nem pensar. Ir de bicicleta até ruas muito distantes de casa, não me
atrevia. Travada desse jeito, desconfiava que meu futuro seria bem diferente do das minhas
amigas.
[20] Até que cresci e segui medrosa para andar de helicóptero, escalar vulcões, descer
corredeiras d’água. No entanto, aos poucos fui descobrindo que mais importante do que ter
coragem para aventuras de fim de semana, era ter coragem para aventuras mais definitivas,
como a de mudar o rumo da minha vida se preciso fosse. Enfrentar helicópteros, vulcões,
corredeiras e tobogãs exige apenas que tenhamos um bom relacionamento com a adrenalina.
[25] Coragem, mesmo, é preciso para terminar um relacionamento, trocar de profissão,
abandonar um país que não atende nossos anseios, dizer não para propostas lucrativas porém
vampirescas, optar por um caminho diferente do da boiada, confiar mais na intuição do que em
estatísticas, arriscar-se a decepções para conhecer o que existe do outro lado da vida
convencional. E, principalmente, coragem para enfrentar a própria solidão e descobrir o quanto
[30] ela fortalece o ser humano.
Não subi no barco quando criança – e não gosto de barcos até hoje. Vi minha família sair
em expedição pelo mar e voltei sozinha pela praia, uma criança ainda, caminhando em meio ao
povo, acreditando que era medrosa. Mas o que parecia medo era a coragem me dando as boasvindas, me acompanhando naquele recuo solitário, quando aprendi que toda escolha requer
[35] ousadia.
MEDEIROS, Marta. A graça das coisas. Porto Alegre - RS: L&PM, 2014, p. 90-91.
Avalie as assertivas abaixo quanto aos elementos de coesão.
I. Em “um caminho diferente do da boiada” (linha 27), o pronome presente na contração “do” retoma a palavra “caminho”.
II. A retomada não ocorre por meio de processo de pronominalização em “como a de mudar o rumo da minha vida se preciso fosse” (linhas 23).
III. Na linha 5, o pronome “lhe” refere-se a “homem que amou” (linha 4), termo que lhe dá sentido e que esse pronome substitui na oração adjetiva.
IV. Em “abandonar um país que não atende nossos anseios” (linha 26), o pronome “que” tem a função de recuperar um elemento já introduzido no texto.
Está correto o que se afirma em
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