Questão 3 - FEMA Medicina 2021/2
Leia o trecho do ensaio “A passividade”, de Maria Rita Kehl, para responder a questão.
A primeira consideração sobre a passividade não poderia ser outra senão uma constatação: a de que todos estão irremediavelmente marcados pela experiência da passividade. Mais: de que somos/estamos marcados pela experiência radical da passividade, anterior a qualquer possibilidade de escolha. A primeira posição do bebê é passiva, de completa dependência de um adulto que o tome a seus cuidados: seja a mãe, o pai, uma mãe adotiva, uma babá. Isso porque, diferente de outras espécies, o filhote humano permanece por muito tempo nesse estado de desamparo, nesta dependência de que um Outro deseje se ocupar dele. Se a criança não for tomada ao cuidado do outro, se esse outro não souber, desde o instante do nascimento e ainda por um longo tempo a que chamamos infância, interpretar as expressões de insatisfação e sofrimento da criança e responder a elas, a criança sequer sobrevive fisicamente – ao passo que a maioria dos animais, pouco depois de nascidos, a não ser que sejam abandonados em um ecossistema muito diferente do seu natural, tendem a sobreviver instintivamente. A cria do mamífero, por exemplo, busca instintivamente a teta, bastando, para tanto, que a mãe coloque-a à disposição. Nisto consiste a diferença, para a psicanálise, entre o instinto e a pulsão. Enquanto o animal é adaptado biologicamente ao meio – seu código genético o provê de um “saber” sobre os objetos de satisfação de suas necessidades –, o humano, marcado pela linguagem e destinado a um ambiente cultural, discursivo, se não contar com quem “saiba” do que ele precisa, não sobreviverá. É claro que os recém-nascidos contam com uma reserva vital. Talvez vocês se lembrem do que se passou durante o terremoto do México, quando parte do berçário de uma maternidade foi soterrada e as crianças sobreviveram uma semana, pois ficaram em um bolsão de ar, contando ainda com suas respectivas reservas vitais provenientes das placentas que há pouco tempo ainda as envolviam.
(Adauto Novaes (org.). Vida vício virtude, 2009.)
De acordo com a autora,
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