Questão 2 - Uri Erechim Medicina 2021
TEXTO 1 - QUANDO A SOLIDARIEDADE SE BASTA
O Éderson tem uma cara boa e quase fecha os
olhos quando sorri. A mão é áspera e aperta com
determinação. Mora numa pequena comunidade do
Interior e o sotaque inconfundível o identifica com um
[05] alemão simpático, meio tosco. A primeira vez que
entrou no consultório, pensei que fosse familiar
daquele paciente, um velho muito emagrecido, que
mal entendia e não falava português. Participou da
consulta fazendo perguntas relativas às questões
[10] práticas de internação, onde se dirigir, melhor horário,
essas coisas.
Depois de alguns meses e repetidas visitas, com
ele sempre capitaneando uma nova turma, restavam
duas alternativas: ou a família do Éderson era
[15] realmente muito doente, ou ele tinha algum cargo na
prefeitura, ou o que fosse, que lhe destinava esta
tarefa de escudeiro profissional. Quando quis saber,
ele resumiu: "Ah, doutor, a gente mora numa biboca
onde todo mundo se conhece e esta minha gente
[20] além de muito burra, ainda fala tão mal a língua ‘de
vocês’ que quase ninguém entende. Se não ajudo,
eles não têm a quem recorrer."
Com a determinação de descobrir como a coisa
funcionava, perguntei o que ele ganhava com isso, ele
[25] fez uma cara de surpresa e disse: "Às vezes, eles
fazem um churrasco pra mim no ‘salón’ da igrejinha.
Mas eu nunca peço nada pra mim. Mentira, digo
sempre que marquem as consultas para sexta-feira
que é o dia que atrapalha menos meu trabalho na
[30] roça!".
O encanto da solidariedade era a única
remuneração dele, que mais do que lhe bastar,
evidentemente o orgulhava.
Muda a cena e os artistas, conserva só o
[35] expectador. É segunda-feira de Carnaval, final da
manhã, o dia está lindo e a praia lotada. De repente
uma onda mais forte avançou uns metros na areia e
trouxe de roldão seis chinelos de dedo.
Uma senhora loira, cuja esteira tinha sido
[40] alcançada, ergueu-se com calma e quase sem tocar
na areia lavada pelas ondas, carregou a sua elegância
impressionante em direção aomar que recuara depois
daquela estocada. Determinada a resgatar só o que
era seu, identificou entre os chinelos ondulantes, os
[45] dois que lhe pertenciam, apanhou-os e retornou
serenamente ao seu lugar.
A gratificação de ajudar, provavelmente foi
contraposta à necessidade de falar com
desconhecidos pouco interessantes a fim de
[50] identificar as donas distraídas das pobres sandálias,
que seguiam lá, indefinidas entre serem resgatadas
por alguém, ou engolidas pelo mar que dava pinta de
ter mudado subitamente de humor. No final,
claramente optara por cada um cuidar do que é seu.
[55] Parei para observar a sequência. A senhora
elegante recuou a esteira para uma zona segura e
retomou a leitura. O livro não devia tratar de
solidariedade. Esse assunto desperta interesse cada
vez menor, soterrado pela avalanche da indiferença
[60] que nos rodeia e consome. Estamos conseguindo o
prodígio de criar um paradoxo: a solidão mais
absoluta num universo cada vez mais povoado.
Fonte: CAMARGO, J.J. Quando a solidariedade se basta. Zero Hora. Porto Alegre. Caderno Vida – Atualizada em 05/03/2016. Acesso em: 15 out. 2020.
Pela leitura do Texto 1, infere-se que a crônica tem a finalidade de:
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