Questão 27 - UFPel PAVE - Etapa 3 2022
Leia os textos a seguir para responder à questão.
Publicado em 1973, em plena Ditadura Militar, o romance As meninas, de Lygia Fagundes Telles conta a trajetória de três jovens universitárias, de classes sociais bem distintas, que moram em um pensionato de freiras, na cidade de São Paulo.
Texto I
(Diálogo entre as personagens Lia e Madre Alix)
(…) Confesso que estou mudando, a violência não funciona, o que funciona é a união de todos nós para criar um diálogo. Mas já que a senhora falou em violência vou lhe mostrar uma — digo e procuro o depoimento que levei pra mostrar a Pedro e esqueci. — Quero que ouça o trecho do depoimento de um botânico perante a justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: Ali interrogaram-me durante vinte e cinco horas enquanto gritavam, traidor da pátria, traidor! Nada me foi dado para comer ou beber durante esse tempo. Carregaram-me em seguida para a chamada capela: a câmara de torturas. Iniciou-se ali um cerimonial frequentemente repetido e que durava de três a seis horas cada sessão.
Primeiro me perguntaram se eu pertencia a algum grupo político. Neguei. Enrolaram então alguns fios em redor dos meus dedos, iniciando-se a tortura elétrica: deram-me choques inicialmente fracos que foram se tornando cada vez mais fortes. Depois, obrigaram-me a tirar a roupa, fiquei nu e desprotegido. Primeiro me bateram com as mãos e em seguida com cassetetes, principalmente nas mãos. Molharam-me todo, para que os choques elétricos tivessem mais efeito. Pensei que fosse então morrer. Mas resistia e resisti também às surras que me abriram um talho fundo em meu cotovelo. Na ferida o sargento Simões e o cabo Passos enfiaram um fio. Obrigaram-me então a aplicar os choques em mim mesmo e em meus amigos. Para que eu não gritasse enfiaram um sapato dentro da minha boca. Outras vezes, panos fétidos.
Após algumas horas, a cerimônia atingiu seu ápice. Penduraram-me no pau-de-arara: amarraram minhas mãos diante dos joelhos, atrás dos quais enfiaram uma vara, cujas pontas eram colocadas em mesas. Fiquei pairando no ar. Enfiaram-me então um fio no reto e fixaram outros fios na boca, nas orelhas e mãos. Nos dias seguintes o processo se repetiu com maior duração e violência. Os tapas que me davam eram tão fortes que julguei que tivessem me rompido os tímpanos: mal ouvia. Meus punhos estavam ralados devido às algemas, minhas mãos e partes genitais completamente enegrecidas devido às queimaduras elétricas. E etcétera, etcétera.
Referência: TELLES, Lygia Fagundes. As Meninas. São Paulo: José Olympio, 1973.
Texto II
Meu pequeno amigo
Tão de repente, o amor se transformou
No coração dos homens maus, já se acabou
E sem querer, você se foi
E hoje choram, por você
Na mesma rua que você brincou
Já não existe mais aquele sol
A mesma paz
Não adianta procurar
Quem viu não vai falar
Que o sonho terminou
Digam pra mim
Digam pra mim onde está
E o que foi que fizeram com o meu pequeno amigo
Digam pra mim
Digam pra mim onde está
E o que foi que fizeram com o meu pequeno amigo
O seu sorriso, tão lindo se apagou
Naquela rua, você não brinca mais
Até as flores, do jardim entristeceram
Sentiram sua faltam, morreram
Na mesma rua que você brincou
Já não existe mais aquele sol
A mesma paz
Não adianta procurar
Quem viu não vai falar
Que o sonho terminou
Digam pra mim
Digam pra mim onde está
E o que foi que fizeram com o meu pequeno amigo
Referência: MENDES, Fernando. Álbum Meu pequeno amigo, 1974.
Segundo o relatório do projeto Brasil: Nunca Mais, organizado pela Arquidiocese de São Paulo e publicado pela Editora Vozes, em 1985, os anos de 1973 e 1974 registraram o maior número de desaparecidos políticos no Brasil. Durante o período da Ditadura Militar no Brasil era comum que textos literários, novelas televisivas, peças teatrais e letras de músicas sofressem censura dos órgãos responsáveis, tais como o Serviço Nacional de Informações (SNI) e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). A perseguição a temas e palavras proibidas se estendia a compositores de todos os gêneros musicais/artísticos, alguns artistas se tornaram grandes nomes da resistência e tiveram que usar pseudônimos para conseguirem driblar a censura ou acrescentar/omitir palavras e expressões em suas obras. O cantor e compositor Fernando Mendes, teve sua canção Meu pequeno amigo censurada por tratar do desaparecimento do menino Carlos Ramires da Costa, ocorrido no Rio de Janeiro, em 1973.
Considerando o contexto histórico e os dois textos, assinale a alternativa correta.
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