Questão 49 - UDESC Manhã 2026/2
Texto 14
O crime do professor de matemática
[01] “Às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. Não a angústia de ser
cão que era a tua única forma possível. Mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava
uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e
certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. Agora estou bem certo de
[05] que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa.”
“Mas possuíste uma pessoa tão poderosa que podia escolher: e então te abandonou. Com alívio abandonou
-te. Com alívio sim, pois exigias - com a incompreensão serena e simples de quem é um cão heroico - que eu
fosse um homem. Abandonou-te com uma desculpa que todos em casa aprovaram: porque como poderia eu
fazer uma viagem de mudança com bagagem e família, e ainda mais um cão, com a adaptação ao novo
[10] colégio e à nova cidade, e ainda mais um cão? [...] Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a
possibilidade constante do crime que eu nunca tinha cometido. A possibilidade de eu pecar o que, no
disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser culpado. E este crime substitui o crime
maior que eu não teria coragem de cometer”, pensou o homem cada vez mais lúcido.
LISPECTOR, Clarice. O crime do professor de matemática. In: Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 2020, p.117-118.
Com base no Texto 14, na obra Laços de família, no seu contexto socio-histórico e na variedade padrão da língua escrita, assinale a alternativa correta.
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