Questão 7 - USP FUVEST - Simulado Oficial - 1ª Fase (1ª edição) 2026
Intelectuais e farsantes amiúde se confundem. Sinal dos tempos, gritos se tornam equivalentes a ênfases, ataques passam a valer como expressão de individualidade e a retórica mais rude toma ares de argumentação. A confusão não é nova, é quase natural. Afinal, a inteligência parece poder alimentar tanto a reflexão quanto o canalha; contra toda aparência, inteligências há de diversa natureza. Pior ainda. A quase todos a inteligência parece ser da ordem das coisas cítricas e não naturalmente doce; seria em geral áspera e raramente acolhedora. E o lugar-comum da tradição nos faz mesmo julgar tolo o otimista e profundo o pessimista; a vocação natural da razão parece ser o negativo, a destruição e, portanto, o esclarecimento condenado a ser talhado em penumbra.
Ao contrário, por tolice convicta ou por experiência bem assentada, penso que a inteligência pode ser acolhedora, expansiva. O indivíduo arguto não precisa ser quem prefere sempre a ironia à crítica, se verdadeiramente arguto, não precisa preferir a cizânia à concórdia, a vitória ao consenso, a persuasão ao convencimento.
Chego a guardar a lembrança viva de amigos assim, muitíssimo inteligentes. Minha tristeza mais íntima é quase todos eles terem morrido. Porém, ao encontrá-los outrora, eles pareciam mesmo felizes em me ver, como se, ao me olharem fixamente, escolhessem de mim o que poderia haver de melhor. Amigos que, em vez de lamentar o peso da existência, como o fazem alguns cínicos, saudavam, com alma lírica, sua força instigante, seu permanente desafio.
João Carlos Salles. Eu sei lá: nota sobre as forças selvagens da inteligência. Revista Cult. 29 de março de 2018. Adaptado.
Com base no texto, depreende-se que
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