Questão 10 - IDOMED Unificado medicina - presencial 2026/1
A OSTENTAÇÃO DO LUXO E SEUS EFEITOS PARA AQUELES QUE NADA TÊM
Segundo Janine, o luxo não tem valor moral e essa busca por algo que não tem valor moral, mas sim
prazer, se torna um ponto importante no conflito social no Brasil e no mundo
Na sequência de sua série de comentários sobre as desigualdades sociais, Renato Janine Ribeiro analisa a relação entre o luxo e a miséria. De acordo com ele, o luxo está sempre ligado a uma posição social mais elevada, supõe, de alguma forma, que uma pessoa se distinga dos outros, até mesmo se apresente como superior aos outros, “porque tem um nível de consumo maior, chamado consumo suntuário, isto é, algo suntuoso, algo que se exibe, algo que se ostenta”.
Esse conceito remete ao que ocorria nas cortes europeias já a partir do século 15, chegando ao seu apogeu com Luiz XIV, o Rei Sol, que chama toda nobreza para viver perto dele no Palácio de Versalhes e assim priva essa nobreza da sua base nas províncias, onde tinham os castelos e seus vassalos, para que todos fiquem felizes só de estar junto do Rei Sol. Para o colunista, essa ideia continua presente hoje, “quando a gente vê um programa de celebridades como o BBB, vê revistas de celebridades, quando a gente vê o Instagram, a gente constata toda essa exibição de algum nível de vida, que significa que essa pessoa está acima do ‘reino das necessidades’, quer dizer, essa pessoa não tem que lutar no dia a dia, não tem que batalhar para comer, batalhar para ter casa, batalhar para dar escola para os filhos, não tem que fazer isso, essa pessoa está navegando realmente no prazer”.
O luxo é extremamente agressivo para quem está na miséria, afirma Janine. “Nós estamos numa sociedade em que o consumo é tão idolatrado, constitui tanto uma marca de superioridade ou mesmo de dignidade para as pessoas, que elas acabam roubando, matando mesmo, para ter esse elemento de luxo […] nós estamos numa situação em que esse desejo daquilo que não é necessário, daquilo que não é comida, moradia, educação, saúde, transporte, esse desejo começa a ser extremamente vital para as pessoas se distinguirem umas das outras; e, claro, isso traz conflitos, porque é muito mais lógico, por estranho que pareça, uma pessoa pobre aceitar que um outro tenha necessidade da qual ele pobre está privado do que aceitar que o outro tenha o luxo do qual ele está privado, porque o luxo não tem valor moral, a casa, a saúde, tudo tem valor moral. Essa busca por aquilo que não tem valor moral, mas é prazeroso, se torna um ponto importante no conflito social no Brasil e no mundo”.
Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/a-ostentacao-do-luxo-e-seus-efeitos-para-aqueles-que-nada-tem/. Acesso em: 30 ago. 2025. (Adaptado).
OSTENTAÇÃO NA MÚSICA, VIDA E POLÍTICA
A estratégia de transmitir poder através da ostentação não é nova ou exclusiva da cultura brasileira. Isto tem representado historicamente um modo de vida da elite, particularmente em um país marcado, até pouco mais de uma década atrás, pela desigualdade mais grave do mundo, um país que, até a década de 1880, praticava a escravidão, tendo importado o maior número de escravos que qualquer nação na história. Hoje, ostentação também representa a forma de fazer política.
O Rio de Janeiro sofre de um déficit significativo de infraestrutura nos setores de transporte, habitação, educação, saúde e saneamento básico. No entanto, ao longo dos últimos cinco anos, investimentos de grande escala ocorreram para cumprir as promessas feitas ao COI, a fim de sediar os Jogos Olímpicos de 2016.
O funk carioca atingiu todas as regiões do Brasil, com suas batidas e letras que vão desde o politicamente consciente ao sexual e violento. Quando foi apropriado por favelas de São Paulo, um subgênero surgiu: o funk ostentação, conhecido por suas letras ostentosas e vídeo clips com referências explícitas ao dinheiro, mulheres, carros e bens materiais que significam sucesso financeiro e social.
A ostentação é usada, igualmente, como um caminho para o sucesso por líderes políticos e moradores de favelas — pessoas nos extremos opostos do espectro social e econômico do Brasil. Então, qual é a ligação entre eles?
MC Koringa, uma das principais figuras do funk, percebe uma relação de causalidade entre a ostentação na política e nas favelas: “Tem um teleférico, mas a coleta do lixo é deficiente. As escolas não estão sempre abertas, de modo que produz ignorância. Os sistemas de transporte são maquiagem política. Dos navios negreiros para o metrô de hoje, é a mesma coisa. Em vez de colocar um teleférico em um morro, você precisa resolver os problemas no chão. Para que um teleférico, se você não tem a segurança para usá-lo? A ostentação [nas favelas] é o espelho das falhas do governo (…) Um garoto na favela quer ser burguês com sua corrente de ouro. Dentro da comunidade ele pode ser alguém por causa dela, mas fora, ele ainda é ninguém. Isto embaça o foco deste jovem, ele acaba enganando a si mesmo.”
A ostentação é parte do sonho, a despeito da ênfase das políticas públicas serem superficiais, ao invés de trazer melhorias de bem-estar reais. MC Koringa sente que os funkeiros têm um papel a desempenhar: “Quando o personagem Koringa atua em novelas da Globo, ele quer mexer com aqueles garotos, que estão cercados por criminosos, que estão cercados por drogas. Eles não precisam viver neste ciclo… A responsabilidade do artista é enorme, e eu tenho muito respeito por isso”.
Em um documentário de produção independente, funkeiros de São Paulo explicam que eles pensam que ostentação é tudo. MC Boy do Charmes falou de sua visão: “Ostentação é o funk que fala sobre o sonho de um trabalhador. Um pai tem que ver seu filho em um carro, em uma motocicleta, garantir uma condição melhor para a sua família, uma casa melhor, um plano melhor, a fim de dar ao filho uma condição melhor do que a sua”. Neste contexto, a ostentação é sobre mostrar o que você pode fornecer. Trata-se de demonstrar que você pode subir a escada social, ser alguém que importa e ser aceito em círculos mais privilegiados economicamente.
Disponível em: https://rioonwatch.org.br/?p=16481. Acesso em: 30 ago. 2025. (Adaptado).
Em relação ao tratamento da ideia de ostentação nos dois textos, é correto afirmar que ambos:
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