Questão 6 - IDOMED Unificado medicina - presencial 2026/1
OSTENTAÇÃO NA MÚSICA, VIDA E POLÍTICA
A estratégia de transmitir poder através da ostentação não é nova ou exclusiva da cultura brasileira. Isto tem representado historicamente um modo de vida da elite, particularmente em um país marcado, até pouco mais de uma década atrás, pela desigualdade mais grave do mundo, um país que, até a década de 1880, praticava a escravidão, tendo importado o maior número de escravos que qualquer nação na história. Hoje, ostentação também representa a forma de fazer política.
O Rio de Janeiro sofre de um déficit significativo de infraestrutura nos setores de transporte, habitação, educação, saúde e saneamento básico. No entanto, ao longo dos últimos cinco anos, investimentos de grande escala ocorreram para cumprir as promessas feitas ao COI, a fim de sediar os Jogos Olímpicos de 2016.
O funk carioca atingiu todas as regiões do Brasil, com suas batidas e letras que vão desde o politicamente consciente ao sexual e violento. Quando foi apropriado por favelas de São Paulo, um subgênero surgiu: o funk ostentação, conhecido por suas letras ostentosas e vídeo clips com referências explícitas ao dinheiro, mulheres, carros e bens materiais que significam sucesso financeiro e social.
A ostentação é usada, igualmente, como um caminho para o sucesso por líderes políticos e moradores de favelas — pessoas nos extremos opostos do espectro social e econômico do Brasil. Então, qual é a ligação entre eles?
MC Koringa, uma das principais figuras do funk, percebe uma relação de causalidade entre a ostentação na política e nas favelas: “Tem um teleférico, mas a coleta do lixo é deficiente. As escolas não estão sempre abertas, de modo que produz ignorância. Os sistemas de transporte são maquiagem política. Dos navios negreiros para o metrô de hoje, é a mesma coisa. Em vez de colocar um teleférico em um morro, você precisa resolver os problemas no chão. Para que um teleférico, se você não tem a segurança para usá-lo? A ostentação [nas favelas] é o espelho das falhas do governo (…) Um garoto na favela quer ser burguês com sua corrente de ouro. Dentro da comunidade ele pode ser alguém por causa dela, mas fora, ele ainda é ninguém. Isto embaça o foco deste jovem, ele acaba enganando a si mesmo.”
A ostentação é parte do sonho, a despeito da ênfase das políticas públicas serem superficiais, ao invés de trazer melhorias de bem-estar reais. MC Koringa sente que os funkeiros têm um papel a desempenhar: “Quando o personagem Koringa atua em novelas da Globo, ele quer mexer com aqueles garotos, que estão cercados por criminosos, que estão cercados por drogas. Eles não precisam viver neste ciclo… A responsabilidade do artista é enorme, e eu tenho muito respeito por isso”.
Em um documentário de produção independente, funkeiros de São Paulo explicam que eles pensam que ostentação é tudo. MC Boy do Charmes falou de sua visão: “Ostentação é o funk que fala sobre o sonho de um trabalhador. Um pai tem que ver seu filho em um carro, em uma motocicleta, garantir uma condição melhor para a sua família, uma casa melhor, um plano melhor, a fim de dar ao filho uma condição melhor do que a sua”. Neste contexto, a ostentação é sobre mostrar o que você pode fornecer. Trata-se de demonstrar que você pode subir a escada social, ser alguém que importa e ser aceito em círculos mais privilegiados economicamente.
Disponível em: https://rioonwatch.org.br/?p=16481. Acesso em: 30 ago. 2025. (Adaptado).
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