Questão 9 - USP FUVEST - Simulado Oficial - 1ª Fase (2ª edição) 2027
O paradoxo da identidade latina e o despertar decolonial
João Carlos Corrêa
Somente cerca de 4% dos brasileiros se reconhecem como “latino-americanos”. Este dado contrasta brutalmente com a média de 43% em países como Argentina ou México. E aqui reside nosso paradoxo histórico: enquanto rejeitamos o rótulo, 66% de nós acreditam que o Brasil deve representar a região no Conselho de Segurança da ONU. Desejamos liderar um clube ao qual relutamos em pertencer. Esta ambivalência não é acidental e, sim, a herança de uma ferida colonial que teima em não cicatrizar.
Nossa desconexão com a latinidade tem raízes profundas e dolorosas. Enquanto a América hispânica forjou sua identidade no fogo das guerras de independência contra a coroa espanhola, o Brasil manteve laços umbilicalmente coloniais com Portugal, criando um isolamento que se transformou em mito fundador. A língua portuguesa, longe de ser apenas um idioma, ergueu uma muralha simbólica. Como bem aponta o pesquisador argentino Fernando Mourón (USP), o conceito de “América Latina sempre se associou à colonização espanhola”, excluindo o Brasil de um imaginário continental. Alimentamos a narrativa da excepcionalidade: somos um “país continente”, uma democracia racial”, como um biombo para ocultar nossa inegável pertença geográfica e cultural.
A decolonização exige que reconheçamos que nossa suposta singularidade é uma armadilha colonial. Como argumentam teóricos inspirados em Theodor Adorno, como Santiago Castro-Gómez, a verdadeira unidade latinoamericana reside na diversidade não homogeneizada, nas raízes indígenas sufocadas, nas culturas africanas resistentes e nos fluxos migratórios que nos moldaram, elementos que o Brasil compartilha intimamente com seus vizinhos.
A América Latina existe como um campo simbólico onde Brasil e seus vizinhos disputam significados e poder. Para muitos, como aponta Mourón, a região segue sendo vista como “preocupação e problema”, não como lar coletivo. A verdadeira decolonização, no entanto, já emerge das bases. Movimentos indígenas e quilombolas no Brasil agem em redes transnacionais com parceiros andinos, de forma a nos dar o acalanto de perceber que a unicidade latino-americana se forja “de baixo para cima”, nas lutas comuns contra o extrativismo predatório, o racismo estrutural e a violência neocolonial.
Disponível em https://memorial.org.br/. Adaptado.
O período “A língua portuguesa, longe de ser apenas um idioma, ergueu uma muralha simbólica” é reescrito sem alteração de sentido em:
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