Questão 2 - IDOMED UNIJIPA 2024/2
Crítica Crônica de Uma Cidade Partida Documentário é brutal, real e necessário
O documentário Crônica de Uma Cidade Partida chegou aos cinemas no dia 11 de maio, trazendo um retrato brutal e necessário da criminalidade no Rio de Janeiro
(1.º§) Quem quer assistir a um documentário potente, bem realizado e extremamente necessário, já pode conferir nos cinemas Crônica de Uma Cidade Partida. Com cerca de uma hora e meia de duração, a produção aborda um dos maiores problemas sociais do Brasil: a escalada da violência nas grandes metrópoles, impulsionada pela falta de planejamento urbano. Mesclando imagens em preto e branco das principais favelas do Rio de Janeiro, com depoimentos de moradores, ex-traficantes e até políticos, a obra conta como a Cidade Maravilhosa se transformou em um espaço marcado pelas belezas naturais e também pela violência constante vinda da criminalidade.
(2.º§) Quem conta essa história são Jonathan e Dudu, dois ex-traficantes que, após (muitas) passagens pelas penitenciárias cariocas, decidem largar o mundo do crime e tentar novos caminhos. Além deles, completam a trama Paulo César Pereira, o presidente da associação de moradores da Cruzada; Rômulo, um policial de elite; duas ativistas comunitárias (Dona Vera e Valéria), o jornalista André Trigueiro; e Bruno, dono de uma barbearia local. Por meio deles, somos apresentados à realidade da maioria dos cariocas, especialmente daqueles que moram na tal Cruzada, um conjunto habitacional criado na década de 1950 pela Igreja Católica com objetivo de fornecer moradia para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
(3.º§) Administrado com pulso firme pela Irmã Eni, o local foi, por muitos anos, um exemplo de moradia comunitária, mas após a sua morte passou a se deteriorar, se tornando um ponto de tráfico. O declínio começou 30 anos depois da sua construção, na década de 1980, quando os apartamentos foram transferidos para a propriedade dos moradores. A partir de então, o que era um local tranquilo se tornou um dos berços do crime, abrigando traficantes, assaltantes e assassinos e sendo ora comandado pelo ADA (Amigo dos Amigos), ora pelo CV (Comando Vermelho), duas das principais facções criminosas cariocas.
(4.º§) Um ponto interessante do diretor Ricardo Nauenberg é que ele não exime a população da responsabilidade pelo que acontece na cidade. Isso porque, além do tráfico iminente, os moradores da Cruzada também negligenciaram totalmente as oportunidades que tiveram, favorecendo com que a criminalidade se instaurasse no conjunto. Apontar para um único vilão é simplificar a história do Rio de Janeiro e reduzir os problemas a uma simples questão social quando na verdade é mais que isso.
(5.º§) Outro acerto de Crônica de Uma Cidade Partida foi não se acovardar e mostrar como a polícia (militar, civil e de choque) é corrupta e não apenas fecha os olhos para os crimes, como também os favorece, vendendo armas para os bandidos e permitindo que drogas cruzem as fronteiras. Jonathan conta que tal corrupção acontece até mesmo dentro do Exército, local no qual ele conseguia pegar armas para vender para os traficantes da sua região.
(6.º§) Se no Rio de Janeiro existem três principais poderes (o ADA, o CV e o Terceiro Comando), há ainda um que tem se tornado cada vez mais imponente: o miliciano. Caracterizado como um poder paralelo formado por civis armados e policiais (ou ex-policiais), a milícia usa da força e do medo para extorquir a população, geralmente em espaços nos quais a presença do Estado é inexistente. E é nítido que ela tem ganhado cada vez mais destaque tanto nos morros quanto nos asfaltos.
(7.º§) Outro acerto do documentário é mostrar de forma mais realista como a sociedade carioca — tanto os ricos quanto os pobres — vivem em meio a essa onda crescente (e antiga) de violência. Em um determinado momento, Jonathan conta que assim como a cidade foi mudando com o passar dos anos, a maneira como os criminosos lidam com os cidadãos também mudou. Ele revela que quando o crime chegou na Cruzada, o dono da boca não permitia que as crianças ficassem perto do tráfico e da violência, protegendo-as daquela realidade de certo modo. Hoje, por perceberem que as crianças são "mulas" fáceis de entrar na cadeia, acabam as usando como forma de levar algo para dentro do presídio. Isto mostra que o crime evoluiu para uma maior crueldade e desrespeito.
(8.º§) Não é incomum vermos documentários que, embora abordem temas importantes como este, acabam caindo em uma demagogia ou em uma dramatização exagerada do caso. Felizmente isso não acontece com Crônica de Uma Cidade Partida, que até oferece soluções possíveis no final, mas não busca ser o salvador da pátria ou tentar resolver todos os problemas do mundo. Desse modo, é simples concluir que o filme é coeso, bem escrito e ajuda a trazer à tona histórias importantes, não muito conhecidas, como a da própria Cruzada. Quem quiser dar uma chance a Crônica de Uma Cidade Partida, já pode assisti-lo nos cinemas.
Adaptado de https://www.terra.com.br/. Acesso em 24 de fev de 2024.
Levando-se em consideração os diferentes modos de organização textual, é correto afirmar que o texto está predominantemente organizado no modo:
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