Questão 5 - IDOMED Medicina 2023/2
FUTEBOL: ESPERANÇA DE MUDAR DE VIDA
Os sujeitos das camadas populares percebem a arte popular – o futebol é considerado uma delas – como uma oportunidade de ascensão social. Por conta das desigualdades de oportunidades escolares e sociais existentes na sociedade brasileira, a remuneração obtida em atividades lúdicas e prazerosas, como o esporte e a arte popular, pode proporcionar a melhoria das condições de vida dos que se dedicam a elas, ainda que em diferentes níveis de realização e de competência. Portanto, tais atividades despertam a aspiração de crianças e jovens que vislumbram um futuro melhor para si e para sua família.
No Brasil, o futebol parece ser o meio esportivo que oferece maiores chances para que indivíduos com pouca escolarização e qualificação profissional alterem sua posição na estrutura social, obtendo sucesso e prestígio. Uma comparação com os níveis familiares de subsistência desses indivíduos, antes de ingressarem na carreira esportiva e com o nível médio dos indivíduos da mesma camada social, revela diversas evidências de melhoria nas condições socioeconômicas ao longo da trajetória no esporte. Essas melhorias se revelam na remuneração, na moradia e em outros benefícios, em relação aos que permanecem naquela camada social.
Cabe destacar, todavia, que a participação de pessoas das camadas populares nos clubes de futebol teria encontrado, por várias décadas, grande resistência das elites brancas que administravam – e ainda hoje gerenciam – o esporte. No entanto, a popularização da prática do futebol, com as ‘peladas’ nas ruas ou campos de várzea e com as ligas paralelas e a oficial, revelou atletas de habilidade incontestável, que atraíram o interesse dos clubes de elite. Assim, a crescente competição entre esses clubes ajudou a derrubar as barreiras postas à participação de jogadores vindos de outras classes menos favorecidas, inclusive negros, que marcaram o esporte por sua performance e sua origem. A competitividade, ao que tudo indica, teria desencadeado a abertura do restrito espaço futebolístico do início do século, mas essa visão de competição como força de acesso ainda precisa ser mais pesquisada.
Diante das limitações da estrutura social no país, é possível que, ainda hoje, o futebol, outros esportes e as manifestações artísticas (como a dança e a música popular, por exemplo) estejam entre os poucos espaços para mobilidade social abertos a indivíduos das camadas menos favorecidas. Os jovens dessas camadas parecem ver, na carreira esportiva, uma possibilidade de subsistência em uma ocupação profissional que reúne bons salários e prestígio. Para esses jovens, a profissionalização como jogador de futebol pode representar uma alternativa ao cerceamento que a estrutura social impõe às possibilidades de melhoria de vida, com escolas de baixa qualidade, residências e bairros insalubres, além de outros problemas.
É sabido que a via tradicional para a mobilidade social dos indivíduos depende da herança escolar e econômica – a que, infelizmente, a maior parte da população não tem acesso. Mas o esporte oferece outra saída, uma vez que o talento e o esforço pessoal são os fatores determinantes da ascensão na sociedade. Nesse contexto, diferenças de formação cultural, étnica, religiosa, de classe e outras são superadas pela maior habilidade individual. Na percepção desses jovens das camadas populares, portanto, os benefícios da formação escolar parecem ser baixos em relação aos custos envolvidos. Com base no que sabem sobre experiências de outras pessoas, parecem acreditar que a formação escolar não leva a mudanças, mas sim à manutenção da situação em que vivem.
Os debates sobre a ascensão social proporcionada pelo futebol, porém, ficam muitas vezes restritos à seletividade e às poucas oportunidades de enriquecimento associadas ao esporte. Esses debates não têm levado em conta a quantidade de indivíduos provenientes das camadas populares que atuam em diferentes níveis esportivos e que, por meio dessa participação, são capazes - mesmo sem altos salários – de assegurar melhores condições de vida para si e para os familiares.
Enfim, propomos entender que o futebol pode ser um caminho que permite a indivíduos com formação escolar restrita pela estrutura social alcançar, pelos próprios méritos, prestígio e melhoria da qualidade de vida, independentemente da origem social. Essa proposta não pretende diminuir a importância da escola, fundamental para disponibilizar os instrumentos para que os indivíduos entendam, critiquem e modifiquem a realidade cultural. No entanto, as oportunidades escolares desiguais podem reduzir as chances de mobilidade social e esse fato parece não passar despercebido por quem enfrenta esse problema. Os jovens e seus responsáveis encontram prazer na prática esportiva e acreditam que esta seja um meio importante de superar as adversidades e alcançar uma socialização positiva: um drible rumo a um futuro melhor.
VIANNA, José Antonio. Futebol: esperança de mudar de vida. Ciência Hoje, no. 315, vol. 53, jun. 2014, p. 18-23. Disponível em: cienciahoje.periodicos.capes.gov.br. Acesso em: 03/04/2023. Adaptado.
No trecho “Cabe destacar, todavia, que a participação de pessoas das camadas populares nos clubes de futebol teria encontrado, por várias décadas, grande resistência das elites brancas que administravam – e ainda hoje gerenciam – o esporte”, (terceiro parágrafo), o uso dos travessões demarca:
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