Questão 11 - UECE 1 Fase 2026/2
O texto, a seguir, é parte da obra Os sertões, de Euclides da Cunha, publicado em 1902, intitulada “A terra”. A obra é resultado da cobertura jornalística da Guerra de Canudos, realizada entre agosto e outubro de 1897, para o jornal O Estado de S.Paulo.
TEXTO II
A terra
[85] [...]
Percorrendo certa vez, nos fins de setembro [de
1897], as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de
um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos,
encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro
[90] irregular, onde as colinas se dispunham circulando um
vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando
em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes,
davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim
em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira
[95] alta, sobranceando a vegetação franzina.
O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo
chão e protegido por ela — braços largamente abertos,
face volvida para os céus — um soldado descansava.
Descansava... havia três meses.
[100] Morrera no assalto de 18 de julho [de 1897]. A
coronha da Mannlicher estrondada, o cinturão e o boné
jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que
sucumbira em luta corpo a corpo com adversário
possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada
[105] que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta.
E ao enterrarem-se, dias depois, os mortos, não fora
percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de
menos de um côvado de fundo em que eram jogados,
formando pela última vez juntos, os companheiros
[110] abatidos na batalha. O destino que o removera do lar
desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da
promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e
deixara-o ali há três meses – braços largamente abertos,
rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os
[115] luares claros, para as estrelas fulgurantes...
E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara
conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a
ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em
tranquilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem
[120] um verme — o mais vulgar dos trágicos analistas da
matéria — lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da
vida sem decomposição repugnante, numa exaustão
imperceptível. Era um aparelho revelando de modo
absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.
[125] [...]
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
Considerando a construção estrutural e discursiva do texto II, o tipo textual predominante é
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