Questão 6 - IDOMED Medicina 2022/1
TEXTO
(1.º§) Neste momento, estamos sendo desafiados por uma espécie de erosão da vida. Os seres que são atravessados pela ciência e pela atualização constante de novas tecnologias também são consumidos por elas. Essa ideia me ocorre a cada passo que damos em direção ao progresso tecnológico: que estamos devorando alguma coisa por onde passamos. Aquela orientação de pisar suavemente na terra de forma que, pouco depois de nossa passagem, não seja mais possível rastrear nossas pegadas, está se tornando impossível: nossas marcas estão ficando cada vez mais profundas. E cada movimento que um de nós faz, todos fazemos. Foi-se a ideia de que cada um deixa sua pegada individual no mundo; quando eu piso no chão, não é o meu rastro que fica, é o nosso. E é o rastro de uma humanidade desorientada, pisando fundo.
(2.º§) Eu ganhei uma plantinha maravilhosa que produz umas folhinhas que você pode colher, lavar, botar um azeite ou limão em cima e comer. Ela é cheia de proteínas, se chama moringa (moringa oleifera). Então, minha planta de moringa estava crescendo lá no quintal e, um dia, do meio para o final da tarde, as formigas a acharam. Quando eu olhei, não tinha mais nenhuma folha: tinham comido todas, ficaram só os talos. Aquilo me deu uma chateação com aquelas formigas... Pois nós estamos fazendo a mesma coisa com o planeta, do meio-dia para o fim da tarde a gente termina de comê-lo. A ecologia nasceu da preocupação com o fato de que o que buscamos na natureza é o finito, mas o nosso desejo é infinito, e, se o nosso desejo não tem limite, então vamos comer este planeta todo.
(3.º§) Nós estamos, devagarzinho, desaparecendo com os mundos que nossos ancestrais cultivaram sem todo esse aparato que hoje consideramos indispensável. Os povos que vivem dentro da floresta sentem isso na pele: veem sumir a mata, a abelha, o colibri, as formigas, a flora; veem o ciclo das árvores mudar. Quando alguém sai para caçar, tem que andar dias para encontrar uma espécie que antes vivia ali, ao redor da aldeia, compartilhando com os humanos aquele lugar. O mundo ao redor deles está sumindo. Quem vive na cidade não experimenta isso com a mesma intensidade porque tudo parece ter uma existência automática: você estende a mão e tem uma padaria, uma farmácia, um supermercado, um hospital.
(4.º§) Na floresta, não há essa substituição da vida, ela flui, e você, no fluxo, sente a sua pressão. Isso que se chama de natureza deveria ser a interação do nosso corpo com o entorno, em que a gente soubesse de onde vem o que comemos, para onde vai o ar que expiramos. Para além de “eu sou a natureza”, a consciência de estar vivo deveria nos atravessar de modo que fôssemos capazes de sentir que o rio, a floresta, o vento, as nuvens são nosso espelho na vida. Eu tenho uma alegria muito grande de experimentar essa sensação e fico procurando comunicá-la, mas também respeito o fato de que cada um tem a sua passagem por este mundo.
Adaptado de Ailton Krenak. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
“Os povos que vivem dentro da floresta sentem isso na pele: veem sumir a mata, a abelha, o colibri, as formigas, a flora” (2.º§)
Os dois pontos podem ser substituídos, mantendo o sentido global da frase, por:
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