Questão 6 - INSPER Processo Seletivo 2026/1
leia um trecho do conto “Último capítulo”, do escritor Machado de Assis, publicado originalmente em 1884 no livro Histórias sem data.
Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro1 da empresa. Rufina (permitam-me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz2, mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro3 no segundo. [...] O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza; mas estava casado.
Felizmente — ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domésticas de Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não mourejava4 em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha “das francesas”, como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo5, não lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto estas coisas, senão para mostrar a lógica e a constância do meu destino.
(Machado de Assis. Histórias sem data, 2022.)
1agro: que ou o que é árduo, duro, rigoroso.
2Macbeth, Cleópatra, Julieta e Beatriz: personagens de conhecidas
obras literárias.
3desdouro: descrédito, desonra.
4mourejar: trabalhar duro.
5cepo: pedaço de um tronco de árvore. O narrador refere-se aqui a uma
fábula de Esopo intitulada “As râs que pediam um rei”.
Com a finalidade de realçá-lo, costuma-se repetir o objeto indireto. Essa reiteração recebe o nome de objeto indireto pleonástico. Neste caso, uma das formas é obrigatoriamente um pronome pessoal átono.
(Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Adaptado.)
Ocorre objeto indireto pleonástico no seguinte trecho:
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