Questão 1 - UFAM PSI - CG 1 2025
Considere, a seguir, os excertos do texto para responder à questão:
APRESENTAÇÃO
Eduardo Moreira
Sou um curioso patológico. Um ser humano encantado pelas infinitas possibilidades que surgem quando abrimos as páginas de um livro e mergulhamos em um novo saber. De teorias que versam sobre a origem (e o sentido) da existência até contos ficcionais que dão vida a mundos e personagens extraordinários, já explorei certamente, ao longo de meus quase 50 anos, algumas centenas de obras.
Recentemente me fiz a seguinte provocação: caso fosse obrigado, como que por um castigo dos deuses, a voltar no tempo e escolher entre todos os livros que já li apenas um para manter como lido, renunciando a todos os outros, qual livro seria esse?
O que poderia parecer uma pergunta tola e com pouco valor prático acabou se transformando em um incrível exercício para perceber a importância que os livros tiveram na minha vida. Foi por meio de um deles, por exemplo, que conheci a história do “encantador de cavalos”, Monty Roberts, um caubói californiano que revolucionou o treinamento de cavalos em todo o mundo ao desenvolver uma técnica sem violência para treinar esses animais. Foi após lê-lo que viajei aos Estados Unidos para conhecer seu autor e me encantei com o seu método, aprendendo-o e passando a viajar os quatro cantos do Brasil para divulgá-lo – trabalho que resultou numa comenda que recebi em 2012 da rainha Elizabeth II no Castelo de Windsor, na Inglaterra. A repercussão da comenda impulsionou o interesse pelos meus livros e palestras a ponto de, poucos anos depois, eu poder deixar o mercado financeiro em que trabalhava havia duas décadas e abraçar a carreira que sempre havia sonhado trilhar.
Não tenho dúvidas que minha vida seria hoje bem diferente caso esse livro estivesse entre os que eu deixasse de ler. Provavelmente, nem sequer estaria casado, pelo menos não com a esposa com quem sou, dado que fomos apresentados por um amigo em comum que a presenteou com o livro que escrevi sobre a experiência com Monty Roberts. O que significa que minha filha mais nova, Maria Eduarda, também não estaria hoje entre nós, correndo e dançando pela casa, alegrando nossos dias. Tudo por conta de um, somente um, dos livros que li.
Da mesma forma, em maior ou menor intensidade, outros livros exerceram também grande influência em minha formação. Levaram-me a conhecer pessoas e lugares, me fizeram desenvolver gostos e crenças e foram, pouco a pouco, desenhando a pessoa e o personagem que me tornei. Não é exagero dizer, portanto, que sou, em boa parte, a soma dessas leituras.
Voltando à provocação da qual não quero escapar: qual livro escolheria manter como lido se fosse castigado pelos deuses? Por mais estranho que possa parecer, a reposta me vem sem qualquer titubeio: ficaria com O animal social. O motivo? Foi o livro que, certamente, mais contribuiu para a capacidade de leitura de mundo que hoje tenho, ensinando conceitos e oferecendo ferramentas sem as quais tudo seria, para mim, muito mais difícil de compreender.
Li o livro pela primeira vez há mais de dez anos. Havia desenvolvido um grande interesse por etologia, área da biologia responsável por estudar o comportamento animal, altamente influenciada pela teoria da evolução. Em poucos meses, “devorei” dezenas de livros sobre o assunto, entre os quais, vários utilizados pelas universidades norte-americanas de maior renome. Eram livros enormes, alguns com quase mil páginas, e quase todos com uma linguagem acadêmica densa, contemplando não apenas conceitos de biologia, mas também de física, química e, principalmente, matemática. Em comum, todos traziam pelo menos um capítulo dedicado ao comportamento de um animal específico: nós, os humanos. E foi explorando as temáticas desses capítulos que cheguei à psicologia social.
Ao digitar o tema nos campos de busca das livrarias online, deparei-me com um universo de centenas de possibilidades de leitura. Curiosamente, vários dos livros sugeridos tinham títulos e abordagens que se assemelhavam muito aos do segmento de “autoajuda”. Minha intenção, porém, era buscar uma abordagem mais acadêmica sobre o assunto. Foi quando li em algum lugar, falha-me a memória onde, sobre O animal social, que ainda não havia sido traduzido no Brasil. Um livro, dizia a resenha, que continha uma abordagem científica profunda sobre a psicologia social ao mesmo tempo que cativava a atenção do leitor por meio de uma narrativa rica em estudos de caso, histórias e reflexões. Era exatamente o que eu estava buscando.
Lembro-me, como se fosse hoje, do envolvimento que tive com o livro. Cada um dos capítulos me despertava uma enorme vontade de ir além no estudo dos temas apresentados. Dezenas de livros que li após a obra de Aronson, fundamentais no meu processo de formação política e ideológica, são fruto desse interesse. É, provavelmente, o livro de minha vasta biblioteca com mais trechos sublinhados, destacados e comentados. Minhas palestras e livros escritos após essa leitura têm claramente uma enorme influência sua.
[...]
Fonte: Eduardo Moreira in Aronson, Elliot; Aronson, Joshua. O animal social. São Paulo: Goya, 2023.
Em relação ao trecho "Sou um curioso patológico. Um ser humano encantado pelas infinitas possibilidades que surgem quando abrimos as páginas de um livro e mergulhamos em um novo saber. De teorias que versam sobre a origem (e o sentido) da existência até contos ficcionais que dão vida a mundos e personagens extraordinários, já explorei certamente, ao longo de meus quase 50 anos, algumas centenas de obras.", avalie as afirmativas apresentadas a seguir:
I. A palavra quase é um adjetivo empregado no sentido de “aproximadamente”, reforçando a ideia de que o autor da Apresentação estava mais perto dos 50 do que dos 40 anos.
II. Embora o autor da Apresentação empregue o adjetivo patológico, cujo sentido dicionarizado é essencialmente negativo, no contexto ele assume um valor positivo, o que é reforçado, na sequência, entre outras marcas linguísticas, pela expressão “ser humano encantado pelas infinitas possibilidades”.
III. Considerando-se que a Apresentação foi publicada em 2023, ocasião em que o autor afirma que ele tinha “quase 50 anos”, seria factível inferir que, neste ano de 2024, ele já pode – efetivamente – ter completado essa idade.
IV. Ao declarar que explorou centenas de obras (de teorias até contos ficcionais), autor da Apresentação comprova que ele é, de fato, um curioso.
Assinale a alternativa CORRETA:
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