Questão 8 - CESGRANRIO 2016
Texto II
Parabéns
Eu havia me mudado para aquele apartamento
de dois quartos, fazia uma semana, quando de manhã
muito cedo, não que fosse cedo apenas para minha
hora de acordar, era o cedo cronológico dos relógios
que ainda não marcavam seis horas da manhã.
O som altíssimo anunciava o aniversário de alguém
que, por força do destino ou de algum inarredável
horário de trabalho, não poderia sair sem ouvir a saltitante
mensagem da universal canção.
As vozes eram as vozes do disco e mais vozes
crianças, adultas e de muitos bichos e periquitos,
num estampido de alegria, porque alguém fazia aniversário,
um aniversário único na imensidão do universo
e urgia que o prédio, a rua, a cidade inteira
soubesse da celebração.
Quem são essas felizes criaturas? Não gosto de
intimidade com vizinhos, tenho meu jeito engavetado
de palavras exíguas e sorriso curto, não me interesso
pela vida alheia, mas no momento em que meu sono
é invadido de maneira tão abrupta, tive vontade de
saber alguns porquês que me forçaram a tão insólito
despertar. Não pude continuar a dormir com aquela
festa que se arremetia contra as paredes de meu
apartamento e do meu corpo deitado sobre a cabeça
explodida, aquela festa que só terminaria muito além
da hora em que eu pudesse novamente encolher na
cama, depois de todo um dia entupido com vozerios
e alvorocios. Não sobrava uma brecha por onde eu
pudesse escapar para me concentrar e escrever, afinal
havia um prazo a cumprir com minha editora.
Na manhã seguinte, a campainha, bom-dia,
desculpe, eu vim acordar a senhora? A vozinha vinha
acima de um pratinho de papelão coberto por
um guardanapo de papel desenhado com dóceis
florzinhas, mamãe mandou para a senhora, foi meu
aniversário, sabia? esses docinhos foi mamãe que
fez, desculpe eu ter acordado a senhora, não tem
importância, entre, meu bem, eu sentia que diante
da inesperada gentileza, eu deveria desengavetar
pelo menos algum fio de amenidade comunitária, a
senhora mora sozinha? olhe aqui, meu bem, você
gosta de chocolate? muito obrigada, mas a senhora
é casada? até logo meu bem, diga a sua mãezinha
que eu agradeço os docinhos, viu? Invasões, mas eu
teria que suportar invasões do meu sono e da minha
bolha? [...]
Os dias se passaram, meu texto progredia, eu
respondia ao sorriseiro bom-dia dos meus vizinhos
do apartamento comemorativo. [...]
Eu me fechava na porta, na gaveta, na bolha
e me deitava outra vez, em busca do sono perdido.
Quando sou obrigada a me aproximar da área, invariavelmente
os olhos estão de sentinela, chamam
outros olhos para prosseguirem na inclemente investigação,
mas o que será que eu tenho de tão inusitado?
bom-dia, bom-dia, a senhora está precisando de
alguma coisa? não, muito obrigada, se precisar, etc.,
os vizinhos, a senhora sabe, devem se ajudar, etc.
a senhora ontem recebeu aquela visitinha especial,
hein? bonitão, hein? a senhora é solteira ou desquitada?
pergunto, mas não é para me intrometer na sua
vida, nem por curiosidade, Deus me livre, é porque a
senhora mora sozinha, afinal, a senhora é datilógrafa
ou escritor? nós escutamos a sua máquina o dia inteiro,
até tarde da noite, não é que eu esteja reclamando,
mas às vezes nós não conseguimos dormir com o
barulho de sua máquina. [...]
Meu trabalho se arrastava, eu tinha que recuperar
o tempo escrevendo até altas horas, bom dia,
senhora, ah, o senhor é o novo síndico, não é? Isso
mesmo, eu estou aqui para um assunto desagradável,
me desculpe, a senhora é uma moradora tão
educada, mora sozinha mas acontece que seus vizinhos
do lado me fizeram uma reclamação, a senhora
escreve na sua máquina fora do horário de silêncio
obrigatório e o casal e as crianças e mais os recém-
-nascidos não conseguem dormir, compreenda, não
leve a mal, porém eu sou obrigado a notificar a senhora
e, de acordo com a convenção do condomínio,
vou lhe cobrar uma multa por desrespeito às normas
do prédio.
CUNHA, Helena Parente. Vento, ventania, vendaval. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Salvador: Fundação João Fernandes da Cunha. 1998. p. 36-41. Fragmentos.
O Texto II é um fragmento de um conto da escritora brasileira contemporânea Helena Parente Cunha, professora universitária e ficcionista.
Um traço que caracteriza essa contemporaneidade literária é
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