Questão 8 - CESGRANRIO 2012
Texto
A superação da dor
Novas informações sobre os mecanismos que nos levam a sentir dor ajudam na criação de alternativas capazes de dar alívio aos pacientes
Um dos instrumentos mais importantes de
defesa do organismo. Assim pode ser resumida a
dor. Se quebrarmos o braço, sentimos dor, e assim
sabemos que não devemos usá-lo para não piorar a
[5] fratura. Se encostarmos em uma superfície quente, a
variação de temperatura nos faz tirar a mão, evitando
que o calor destrua a derme. Se há infecção em
algum órgão, cólicas intensas avisam que algo errado
acontece. Sem a dor, seria impossível manter a
[10] integridade de nosso corpo. Em alguns casos, porém,
esse orquestrado sistema de defesa sai do eixo. Em
vez de proteger, vira uma ameaça. Por mecanismos
complexos, a dor, que deveria ser apenas um
alerta, torna-se perene, constante. Transforma-se
[15] na chamada dor crônica – aquela que persiste por
mais de três meses ou por um período superior ao
calculado para a recuperação do paciente. Além
de desafiador, o problema tem grande extensão.
A Organização Mundial da Saúde calcula que, no
[20] mundo, a cada cinco pessoas, uma sofra com a dor
permanente.
A urgência em dar alívio a essa população
tem feito com que, no mundo todo, cientistas se
entreguem à busca de uma melhor compreensão dos
[25] mecanismos que levam às sensações dolorosas e de
novas formas de intervir nesse processo quando ele
se torna prejudicial. Se por um lado ainda há muito o
que ser descoberto, por outro, os avanços da ciência
já são capazes de garantir a uma boa parcela desses
[30] pacientes a possibilidade de uma vida sem dor.
Pode parecer paradoxal, mas algumas das
respostas têm sido dadas a partir de pesquisas com
pessoas que simplesmente não sentem dor. Trabalho
desse gênero está sendo realizado no Centro de
[35] Dor do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC-SP).
Entre os indivíduos estudados estão os irmãos
Marisa Helena, 24 anos, e Reinaldo Martins, 30 anos.
Os dois moram em Angatuba (SP). Suas histórias
evidenciam a importância da dor para garantir uma
[40] vida segura. Mãe de duas meninas, Marisa precisou
ser acordada durante seu segundo parto: o bebê
já estava nascendo, e ela permanecia dormindo.
Reinaldo teve de amputar a perna após uma grave
inflamação no joelho. Ele não sentiu os tecidos
[45] infeccionarem. Até coisas banais, como comer,
oferecem risco. Eles não percebem, por exemplo,
quando põem um alimento muito quente na boca e
só sabem que morderam a língua quando sai sangue.
Sem o aviso da dor, os tecidos do corpo de Marisa
[50] e Reinaldo estão constantemente ameaçados.
É preciso uma rotina de cuidados redobrados que
inclui uma inspeção diária em busca de possíveis
lesões. Quando a ameaça não está visível, o problema
fica mais sério. No último mês, Marisa foi ao hospital
[55] após sentir febre por dias seguidos. Nada lhe doía.
Os exames, porém, revelaram uma infecção urinária
e um cálculo biliar. “Eu queria sentir dor, mesmo que
fosse um pouquinho”, diz a agricultora.
COSTA, Rachel. A superação da dor. Revista Isto é, São Paulo, n. 2173, 06 jul. 2011, p.76-77.
O conector destacado em “Eu queria sentir dor, mesmo que fosse um pouquinho,” (L. 57-58) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por
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