Questão 3 - UFJF - PISM Módulo III dia 1 2024
TEXTO
ESTUDO REÚNE ESTATÍSTICAS DA PRODUÇÃO DE AUTORIA NEGRA BRASILEIRA DE 1859 A 2020
Escrito por Edma de Góis
De tudo quanto pode ser dito sobre as mudanças no campo literário brasileiro nas duas últimas décadas, para ficarmos apenas neste século, um dos realces mais evidentes é a maior circulação de livros de autoria negra dos mais diferentes gêneros. Uma mirada nas principais apostas das editoras, das livrarias e dos encontros acadêmicos e principais eventos literários do país dá elementos para se fazer este desenho. Entender os percursos que culminam na maior visibilidade da autoria negra brasileira em nosso mercado editorial é trabalho que exige tempo e multiplicidade de olhares para considerar as diversas experiências, muitas destas individuais, que marcam essa mesma autoria. O recém-lançado Trajetórias editoriais da literatura de autoria negra brasileira (Malê Editora) pode ser usado como um norteador nessa empreitada. Mais estatístico do que analítico, o livro organizado pelos pesquisadores Fabiane Cristine Rodrigues e Luiz Henrique Oliveira, ambos do Cefet-MG, busca mapear a produção negra brasileira em um recorte nada modesto de mais de século (1859-2020). Utilizo a terminologia negra brasileira em sintonia com a escolha dos autores que reconhecem “conjugada com outras dimensões, a especificidade desta vertente artística como fenômeno do século XX e o papel de precursores fundamentais atuantes no século XIX”. O que não significa dizer que eles não consideram as especificidades e a relevância social dos termos literatura afrobrasileira, literatura negra ou literatura negro brasileira.
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Se “todo julgamento de valor repousa num atestado de exclusão” como sentencia Antoine Compagnon, nos provocando a pensar que determinar o que é literário fatalmente exclui aquilo que assim não é considerado, é pertinente dizer que Trajetórias não é e não deve ser lido como um estudo definitivo, porque há sempre nomes que escapam a todo mapeamento, por mais rigoroso que o estudo seja. [...] A base de dados utilizada no estudo é o portal Literafro, com a colaboração de outros grupos e projetos de pesquisa. Dos dados disponibilizados no portal, Trajetórias utiliza-se das publicações individuais como forma de facilitar a organização das informações e a metodologia empregada.
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Algumas provocações
O sexismo como aliado do racismo também não passa despercebido em muitas tabelas que compõem o estudo, em que predominam homens em número de publicações (apesar de não haver um levantamento em termos percentuais de gênero, autores e autoras são citados nominalmente). [...]
As edições de autor e editoras independentes concentram-se no gênero poesia, talvez, na avaliação dos pesquisadores, porque também demandam menos risco de investimento editorial. Por outro lado, as editoras não especializadas ainda têm poucos autores negros em seus catálogos, o que nos leva a pensar no interesse genuíno por autorias afrocentradas. É fato que a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileiras nos níveis Fundamental e Médio, anteriormente citado, serviu como um incentivo para que o próprio Estado cumprisse a lei garantindo a compra de livros com essa perspectiva. Mas, mesmo que por força da lei há a aquisição de obras e o próprio incentivo à produção dessa literatura, por outro lado questiona-se o interesse por essa produção, “o real compromisso dessas editoras com a causa negra e até que ponto não se trata apenas daquilo que ficou conhecido no seio dos movimentos negros como ‘afroconveniência’, ou seja, apropriar-se das conquistas para obter vantagens econômicas”.
Por fim, o que também não causa surpresa, o estudo conclui que as editoras gerais ou que não atuam em nicho específico têm poucos autores negros em seus catálogos, enquanto editoras que assumem o discurso afrocentrado concentram um número significativo. [...]
Disponível em: http://www.suplementopernambuco.com.br/resenhas/3081-um-mapa-de-presen%C3%A7as-que-v%C3%AAm-delonge.html. Acesso em 01 jun de 2023. Adaptado para fins didáticos.
O texto é uma resenha escrita por Edma de Góis, que, além de apresentar o livro Trajetórias editoriais da literatura de autoria negra brasileira, também tem uma natureza argumentativa sobre produções literárias de autores negros no Brasil. Nesse sentido, o trecho que indica um discurso de base argumentativa, especificando a opinião da autora é:
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