Questão 2 - UFJF - PISM Módulo II dia 1 2023
TEXTO
Especial
JORNAL DA CIÊNCIA – JUNHO/JULHO DE 2022
A destruição que vem do garimpo
Relatório da CPT mostrou que a atividade vem se expandindo aceleradamente sobre as terras indígenas desde 2012 quase que exclusivamente na região amazônica, causando violência, mortes e poluição
A Terra Indígena (TI) Yanomâmi é a maior do Brasil, com 9,6 milhões de hectares. Demarcada em 1992, abriga os povos Yanomâmi e Ye'kwana, além de vários grupos isolados. No entanto, segundo organizações que defendem os direitos indígenas – Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Instituto Socioambiental (ISA) – tem sido um dos territórios mais duramente afetados pelo garimpo legal e ilegal.
No relatório Conflitos no Campo Brasil 2022, a CPT aponta que em pouco mais de 10 anos, 43 indígenas foram assassinados na Amazônia (...). Os mortos eram, na maioria, líderes de povos que vivem em terras indígenas homologadas pela União e que lutavam contra práticas criminosas, como desmatamento, garimpo, tráfico de drogas e pesca ilegal. Para além do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Philips, que ganhou visibilidade na mídia, só neste ano quatro indígenas foram assassinados, sendo três na TI Ianomâmi, em Mato Grosso.
O levantamento da CPT mostrou que a atividade garimpeira vem se expandindo aceleradamente em TIs, em especial na Amazônia, desde pelo menos 2012. O impacto dessa atividade se tornou a maior ameaça aos povos indígenas da região. De 31 mil hectares em 1985, o garimpo alcançou 206 mil hectares no ano passado. “O garimpo ocorre atualmente quase que exclusivamente na região amazônica (cerca de 90% da área identificada), sendo que metade das áreas de exploração foi detectada em Unidades de Conservação ou Terras Indígenas, onde tal ação é ilegal”, afirma o relatório da CPT.
A ampliação da área resultou em um aumento de 495% das atividades de garimpo entre 2010 e 2020. Somente entre 2019 e 2021, o Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal (SMGI), realizado pela Hutukara Associação Yanomâmi (HAY), identificou um aumento da exploração em mais de 2.000 hectares. Em setembro de 2021, a exploração bateu recorde de 3.224 hectares, um aumento de 44% em relação a dezembro de 2020.
“O garimpo tem um impacto muito grande sobre o solo, sobre o entorno, e este impacto é residual, ou seja, os elementos químicos que estão sendo usados ali afetam a saúde já precária dos indígenas na região Amazônica”, afirmou a ecóloga Luciana Gomes Barbosa, professora do Departamento de Fitotecnia e Ciências Ambientais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e coordenadora do Grupo de Trabalho (GT) de Meio Ambiente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). “Eu considero que é extremamente grave o que nós assistimos hoje no Brasil”, comentou.
Para Carlos Lima, coordenador da Executiva Nacional da CPT, os indígenas são vítimas – assim como os quilombolas – da desfuncionalidade dos órgãos públicos que deveriam protegê-los. “Eu acredito que a Constituição e os órgãos que foram criados ou fortalecidos por ela dariam conta de titular as terras indígenas, demarcar as terras quilombolas, de garantir a reforma agrária, de levar a paz ao campo”, afirmou. Para ele, essa paz só vai ocorrer quando a questão agrária brasileira for resolvida, atendendo às demandas dos indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos e outras comunidades que vivem em seus espaços tradicionais.
“Estamos no auge de um dos períodos mais tenebrosos da história do país, em geral, e dos povos indígenas em particular”, declarou a antropóloga Alcida Rita Ramos. Na visão de Ramos, a ditadura militar tem boa parte da responsabilidade pela situação catastrófica atual dos indígenas. “A ditadura castigou muito não só a cidadania brasileira, mas os povos indígenas de maneira especial, que sofreram frontal e brutalmente os efeitos dos delírios desenvolvimentistas daqueles governos militares, com seus mirabolantes PINs (Plano de Integração Nacional), rasgando estradas na selva, incentivando aventureiros em busca de ouro, madeira, etc.”, disse ao JC.
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Ramos destacou, por outro lado, uma nova consciência indígena. “Como dizem os colegas antropólogos sulafricanos Jean e John Comaroff, depois de décadas de terem sua consciência colonizada, os povos indígenas do Brasil chegam ao terceiro milênio com uma grande consciência da colonização e se tornaram fortes atores políticos que lutam pela dignidade não só deles, mas de todos nós.”
Carlos Lima, da CTP, exalta também a capacidade dos indígenas em comunicar suas tragédias e ganhar a opinião pública nacional e internacional por meio de uma eficiente ação nas redes sociais, embora isso também agrave os riscos que correm. “A comunicação e o uso da tecnologia podem, ao mesmo tempo, atrapalhar por expor uma liderança, expor o povo e facilitar a ação dos agressores. Mas, ao mesmo tempo, se bem utilizada, a tecnologia é um instrumento de articulação entre eles e com outros povos, além de levar a luta deles para além do território, sensibilizando e trazendo pessoas para uma maior compreensão de sua cultura e modo de vida.”
Alcida Ramos complementa: “Em meio ao caos e desespero inéditos que reinam entre nós, ganhamos o privilégio de ter a companhia de quem entende de caos e de sobrevivência: os povos indígenas do Brasil.” (JR)
Fonte: Jornal da Ciência. Edição 799, jun/jul 2022. Disponível em http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/category/pdf/. Acesso em 08 set 2022. Texto adaptado para fins didáticos.
O título e o subtítulo do texto jornalístico lido têm como função:
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