Questão 2 - UFJF - PISM Módulo I dia 2 2022
Texto
Pedro Fazendeiro
Ferreira Gullar
Pedro Fazendeiro me contou. Pedro Fazendeiro é um líder camponês de Sapé, na Paraíba, que esteve no Rio com a viúva de Pedro Teixeira, líder paraibano, morto a mando de Agnaldo Veloso Borges, conforme denúncia recente à justiça. Não sei bem se vocês sabem que esse Agnaldo agora é deputado e, assim, nada sofrerá. Ele era o 12º suplente de seu partido. Pois bem, onze deputados estaduais renunciaram, inclusive o titular do mandato, para que o responsável pela morte de Pedro Teixeira pudesse escapar à justiça.
Pedro Fazendeiro me contou.
- O pessoal lá da Paraíba está numa miséria de fazer dó. A fome é brava. O que se come lá é farinha-d’água com água. E nem sempre: o lavrador ganha cem cruzeiros por dia e um litro de farinha custa isso.
Pedro Fazendeiro me contou que o camponês da Paraíba põe água no fogo e depois joga farinha dentro. É o almoço e o jantar. Se há um temperozinho ou sal, ele bota na água para dar um pouco de gosto. E já há gente comendo capim. Descobriram lá um mato que dá espiga que tem certo gosto. Não é gosto bom, mas é gosto. Põem aquelas espigas junto com a água para tirar o desconsolo da farinha pura.
Houve caboclo que foi expulso da terra onde trabalhava por ter-se queixado da situação. É proibido queixas. O dono da terra o expulsou e mandou avisar a todos os vizinhos que não lhe dessem trabalho, pois era comunista. O pobre homem rodou o município inteiro com mulher e os filhos, mas ninguém, de fato, lhe deu trabalho. Não tinham mais o que comer e as crianças choravam de fome. Chegaram a Sapé. Desesperado, o caboclo decidiu se matar e matar a família. Tudo o que ele possuía, ainda, era um facão de cortar mato. Deixou a família dormir numa ponta de rua e começou a amolar o facão. O que mais podia fazer senão acabar com tudo? Mas uma das crianças acordou chorando e lhe pediu comida. O homem não teve coragem nem de responder e começou a chorar também, já agora sem nem mesmo a solução desesperada que encontrara. Esse homem foi recolhido pelo finado Pedro Teixeira e é hoje um dos membros da Liga Camponesa de Sapé.
Quem me contou foi Pedro Fazendeiro, aleijado de uma perna e braço em consequência dos tiros que levou, a mando dos fazendeiros. E ele conclui, sorrindo:
- Sou chamado de Pedro Fazendeiro, não porque eu tenha fazenda, mas porque vivo querendo tomar as fazendas dos outros...
(Fonte: GULLAR, Ferreira. Crônicas para jovens: seleção de Antonieta Cunha. São Paulo: Global, 2011, p. 53-54.)
As desigualdades sociais vivenciadas pelo trabalhador camponês são ilustradas pela seguinte passagem do texto:
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