Questão 8 - UFJF - PISM Módulo III dia 1 2022
Texto
Lira XIX
Tomás Antônio Gonzaga
Enquanto pasta alegre o manso gado,
Minha bela Marília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos
descobre
A sábia natureza.
Atende, como aquela vaca preta
O novilhinho seu dos mais separa,
E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara,
Como a ruiva cadela
Suporta que lhe morda o filho o corpo,
E salte em cima dela.
Repara, como cheia de ternura
Entre as asas ao filho essa ave
aquenta,
Como aquela esgravata a terra dura,
E os seus assim sustenta:
Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
Que junto deles pisa.
Que gosto não terá a esposa amante,
Quando der ao filhinho o peito brando,
E refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando
Disser consigo: É esta
De teu querido pai a mesma barba,
A mesma boca, e testa.
Que gosto não terá a mãe, que toca,
Quando o tem nos seus braços, c’o
dedinho
Nas faces graciosas, e na boca
Do inocente filhinho!
Quando, Marília bela,
O tenro infante já com risos mudos
Começa a conhecê-la!
Que prazer não terão os pais ao verem
Com as mães um dos filhos
abraçados;
Jogar outros a luta, outros correrem
Nos cordeiros montados!
Que estado de ventura!
Que até naquilo, que de peso serve,
Inspira Amor, doçura.
(Fonte: GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. Rio de Janeiro: Ediouro, Coleção Prestígio. s/d, p. 40 e 41.)
A consciência literária que dinamiza a formação do Arcadismo poético brasileiro no século XVIII está profundamente relacionada aos paradigmas do espírito Iluminista francês. De modo muito breve, pode-se dizer que um dos princípios que move o Iluminismo é a crença em uma razão “universal” e “natural” capaz de integrar o homem e a natureza através de um equilíbrio “eterno” e “imutável”. Como sintetizou o crítico literário Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, o arcadismo se arroga o direito de ser “digna versão literária do iluminismo vitorioso”. É por seguir o princípio do “iluminismo vitorioso” que a natureza na lírica árcade dominante aparece sempre regulada e filtrada por um equilíbrio racionalizador (vale dizer, humanizador) através do qual a dimensão humana e a paisagem física convivem, sem nenhum tipo de conflito, em um artificial locus amuenos.
Tendo em vista as observações acima e suas possíveis relações com o texto (a “Lira XIX” de Tomás Antônio Gonzaga), assinale a alternativa CORRETA:
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