Questão 49 - UDESC Manhã 2026/1
Insônia
Tentei dormir, mas não rolou. Então, vou contar uma história. Na verdade, algumas
histórias. Todas verídicas, por mais incríveis que possam parecer.
Não vou citar nomes, pra não ficar chato, mas esses dias, lá no CAp, onde eu estudo,
disseram que tenho cara de ladrão.
[5] Disseram isso com todas as letras: que tenho cara de ladrão.
– Mas o Zé tem cara de ladrão, não tem? Olha ali, olha bem pro Zé. Se tu tá indo pela
rua e vem vindo o Zé, assim, com esse capuz? Tu não atravessa a rua?
Não fiquei surpreso com aquela “brincadeira”, é claro. E até pensei em perguntar ao
camarada como é que é uma cara de ladrão, mas, nesses últimos tempos, tenho me esforçado
[10] pra me manter fora de discussões inúteis.
Ele não é o único a pensar assim. Acho que todos acabamos reproduzindo falas e
pensamentos preconceituosos aqui e ali. Uns reproduzem mais do que outros, mas acho que
ninguém escapa. O que me fez lembrar de quando completei a maioridade. Em vez de os meus
amigos e familiares virem me dizer “Ei, já pode tirar carteira de motorista!”, o que eles vinham me
[15] dizer era “Ei, agora, se te pegarem roubando ou traficando, tu não sai tão fácil da cadeia!”.
Mas se existe a cara de ladrão no âmbito do senso comum preconceituoso deste país,
também existe a cara de vítima, e essa cara eu sei que não tenho. Os ladrões não parecem me
ver como uma vítima em potencial.
FALERO, J. Mas em que mundo tu vive? São Paulo: Todavia, 2021, p. 37.
Com base no Texto, na obra Mas em que mundo tu vive?, no seu contexto sócio-histórico e na variedade padrão da língua escrita, assinale a alternativa correta.
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