Questão 46 - UDESC Manhã 2026/1
– Tomando fresca, hem? Perguntei a Madalena, que tinha a vista presa no telhado escuro do
estábulo. [...]
– Como tem coragem de espancar uma criatura daquela forma?
– Ah! sim! por causa do Marciano. Pensei que fosse coisa séria. Assustou-me.
[5] Naquele momento não supus que um caso tão insignificante pudesse provocar desavença entre
pessoas razoáveis.
– Bater assim num homem! Que horror!
Julguei que ela se aborrecesse por outro motivo, pois aquilo era uma frivolidade.
– Ninharia, filha. Está você aí se afogando em pouca água. Essa gente faz o que se manda,
[10] mas não vai sem pancada. E Marciano não é propriamente um homem.
– Por quê?
– Eu sei lá. Foi vontade de Deus. É um molambo.
– Claro. Você vive a humilhá-lo.
– Protesto! exclamei alterando-me. Quando o conheci, já ele era molambo.
[15] – Provavelmente porque sempre foi tratado a pontapés.
– Qual nada! É molambo porque nasceu molambo.
Madalena calou-se, deu as costas e começou a subir a ladeira. Acompanhei-a embuchado. De
repente voltou-se e, com voz rouca, uma chama nos olhos azuis, que estavam quase pretos:
– Mas é uma crueldade. Para que fez aquilo?
[20] Perdi os estribos:
– Fiz aquilo porque achei que devia fazer aquilo. E não estou habituado a justificar-me, está
ouvindo? Era o que faltava. Grande acontecimento, três ou quatro muxicões num cabra. Que
diabo tem você com o Marciano para estar tão parida por ele?
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1991, p.110.
Com base no Texto, na obra São Bernardo, no seu contexto sócio-histórico e na variedade padrão da língua escrita, assinale a alternativa correta.
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