Questão 30 - UENP 1 Dia 2020
LXXI - O SENÃO DO LIVRO
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..
– E caem! – Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Heis de cair.
ASSIS, M. de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 18. ed. São Paulo: Ática, 1992. p. 103.)
Com base na leitura do trecho e do romance, considere as afirmativas a seguir.
I. No trecho “se eu tivesse olhos”, há uma ironia do autor das memórias quanto a seu estado no momento em que as redige.
II. A “lágrima da saudade” é uma expressão tipicamente romântica, cuja inviabilidade é, em seguida, ressaltada no trecho.
III. O trecho “não deixa olhos para chorar...” remete à superação do sentimentalismo romântico, emblemática deste romance de Machado.
IV. A passagem “se não deixa boca para rir”, vista como ganho propiciado pela morte, alude à permanência da vocação sombria no realismo machadiano.
Assinale a alternativa correta.
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