Questão 1 - UECE 1 Fase 2026/1
TEXTO
[1] Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado
do homem e de barriga para cima ficou com o olhar
encontrando o nada. Veio-lhe a imagem de porcos no
chiqueiro que comem e dormem para serem sacrificados
[5] um dia. Seria isto vida, meu Deus? Os dias passavam,
estava cansada, fraca para viver, mas coragem para
morrer, também não tinha ainda. O homem gostava de
dizer que ela era pancada da ideia. Seria? Seria! Às vezes,
se sentia, mesmo, como se a sua cabeça fosse um grande
[10] vazio, repleto de nada e de nada.
Quando Ponciá Vicêncio resolveu sair do povoado
onde nascera, a decisão chegou forte e repentina. Estava
cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir
e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver
[15] a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas
mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida
trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior
parte das colheitas ser entregue aos coronéis. Cansada da
luta insana, sem glória, a que todos se entregavam para
[20] amanhecer cada dia mais pobres, enquanto alguns
conseguiam enriquecer-se a todo o dia. Ela acreditava que
poderia traçar outros caminhos, inventar uma vida nova. E
avançando sobre o futuro, Ponciá partiu no trem do outro
dia, pois tão cedo a máquina não voltaria ao povoado.
[25] Nem tempo de se despedir do irmão teve. E agora,
ali deitada de olhos arregalados, penetrados no nada,
perguntava-se se valera a pena ter deixado a sua terra. O
que acontecera com os sonhos tão certos de uma vida
melhor? Não eram somente sonhos, eram certezas!
[30] Certezas que haviam sido esvaziadas no momento em que
perdera o contato com os seus. E agora feito morta-viva,
vivia.
EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio, 2003. p. 32-33.
O trecho do livro Ponciá aborda, da narradora, o sentimento de
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