Questão 3 - EMESCAM 2023/1
Leia este texto para responder à questão.
Rede de anfetamina
João Batista Jr. | Edição 190, Julho 2022
Venvanse é o nome comercial do dimesilato de lisdexanfetamina, substância que estimula a produção no cérebro de dopamina e noradrenalina, neurotransmissores que, entre outras funções, regulam a ansiedade e a capacidade de concentração. Fabricado pelo laboratório japonês Takeda, o medicamento não tem opção genérica no país e seu uso foi liberado pela Anvisa em julho de 2010 para pessoas com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Em novembro de 2018, foi aprovado também para os que têm diagnóstico de transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), distúrbio psiquiátrico que leva o paciente a comer de forma descontrolada, mesmo sem ter fome.
O uso do Venvanse por pessoas que não sofrem de nenhuma dessas condições tem provocado um sumiço da droga nas prateleiras de farmácias em São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas e outras cidades. Como o remédio ganhou fama de ser a melhor opção para incrementar foco e produtividade, tornou-se o queridinho dos executivos que trabalham na Avenida Faria Lima, coração financeiro do Brasil. Eles tomam o medicamento para, como se diz no jargão corporativo, “performar” mais e melhor. O psicoestimulante também tem sido um recurso dos concurseiros, pessoas que se debruçam horas sobre livros para passar em concursos públicos.
No aplicativo Telegram, há pelo menos dois grupos que vendem Venvanse, além de outras drogas controladas. O grupo denominado Venvanse-Ritalina-Concerta [...] e o segundo grupo que se chama Venvanse; Ritalina; Psicotrópicos [...] Ambos atendem todo o país. [...] Os preços praticados são iguais nos dois grupos: de 530 a 600 reais por caixa, dependendo da dosagem do remédio. Nas farmácias, com receita médica, a caixa fica entre 350 e 450 reais. No Telegram, os grupos são abertos: é possível entrar sem convite. Os traficantes de remédios controlados aceitam pagamento por cartão ou Pix. Preços e encomendas são discutidos às claras. No Twitter, o negócio é mais discreto. [...]
“Estima-se que menos de 5% da população mundial sofra de TDAH”, diz Ricardo Feldman, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. O médico alerta para os males que o uso indiscriminado de remédios como o Venvanse pode causar: dependência química, aumento da pressão arterial, síndrome do pânico, dificuldades para dormir e depressão, entre outros. [...]
Para além da dependência química, os danos colaterais do Venvanse são devastadores e podem desencadear inúmeros problemas ao usuário que faz uso dele sem prescrição médica. “Por consumir muita energia do corpo, o organismo responde com fadiga, dificuldade para dormir e aumento do trânsito intestinal”, explica a psiquiatra Camila Magalhães. Ela observa que muitos usuários entram em um ciclo vicioso, empregando a anfetamina – que tira o sono – para trabalhar ou estudar e depois recorrendo a soníferos para dormir à noite.
Para Magalhães, o remédio ecoa o espírito do nosso tempo. “Existe uma positividade tóxica nas redes sociais, nas quais todos se apresentam como felizes, lindos e com boas performances em seus trabalhos”, diz. “A droga responde a essa velocidade frenética, ao culto ao ‘eu’ e ao alto desempenho, tão presentes na sociedade do imediatismo.”
Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/rede-deanfetamina/. Acesso em: 1º ago. 2022. [Fragmento]
De acordo com o texto,
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