Questão 5 - UPF Inverno 2025
A palavra do ano de 2024 é... apodrecimento cerebral
A palavra do ano de 2024 é... apodrecimento cerebral
(Por Suzana Herculano-Houzel, 09 de janeiro de 2025)
[1] A “palavra do ano” eleita em 2024 pelo dicionário Oxford é uma expressão de duas palavras: “brain rot”, ou apodrecimento
cerebral. A expressão descreve o dano mental atribuído ao excesso de uso de mídias digitais para consumir conteúdo trivial e
irrelevante. A espécie mais promissora do planeta, aquela que carrega em seu cérebro o maior número de neurônios corticais
capazes de encontrar padrões, formar associações e aprender com o passado para mudar o futuro, quem diria, resolveu usar
[5] sua capacidade cerebral para gastar tempo rolando telas.
Que fique claro: o “dano mental” é presumido. A perda de tempo e oportunidades, no entanto, é certa e documentada. Segundo
o Relatório Digital 2024, brasileiros passam em média nada menos do que três horas e 37 minutos – assim mesmo, com todas
as letras – pendurados em redes sociais, sobretudo Instagram. Apenas os cidadãos do Quênia e da África do Sul ganham dos
brasileiros, e por meros minutos. Nos EUA, a média é de duas horas e 18 minutos; na Europa, fica abaixo de duas horas, e
[10] no Japão, não chega a uma hora diária.
Certo, também, é o emburrecimento do usuário comparado com o que ele poderia alcançar se tivesse usado aquelas quase
quatro horas para pensar sobre algo mais útil do que os mesmos memes repetidos e reciclados ad nauseum ou mais gatinhos
fazendo bobagens adoráveis no septuagésimo nono vídeo do dia.
Quase quatro horas. Como pode?
[15] O que define as mídias sociais não é o serviço que lhes dá nome, de aproximar gente que não teria oportunidade de se encontrar
em pessoa. Isso é apenas a desculpa oferecida pelas plataformas aos usuários, e pelos usuários a si mesmos, para justificar
sua presença continuada. O que define as ditas redes sociais é o passo rápido de conteúdos rasos num poço sem fundo de
diversão e às vezes até informação, mas quase zero conhecimento.
A parte mais importante, contudo, é a necessidade de envolvimento do usuário para rolar a tela e pular de uma imagem ou
[20] vídeo ao próximo – porque texto, Deus nos livre, dá trabalho demais para o cérebro.
Esse envolvimento mínimo, mas absolutamente necessário, é a sacada bilionária das plataformas "sociais". Exigir que o usuário
estenda um dedo para rolar a tela capitaliza em cima da função mais básica, mais primordial, do cérebro: a sequência de agir,
monitorar o resultado da ação, e então agir de novo dependendo do resultado da primeira ação. De todas as alternativas
possíveis, a ação escolhida a cada instante é aquela que mais vale a pena, literalmente: a que traz maior gratificação com
[25] menos esforço.
Ler o jornal ou um livro ou sair para encontrar amigos e colegas dá trabalho, mas rolar a tela só custa estender o dedo – e a
recompensa, movida à dopamina (pronto, usei a palavra mágica) que sinaliza o retorno positivo, é imediata. As redes sociais
são apenas a versão vitaminada do caça-níqueis dos cassinos, e como nos cassinos, a casa sempre ganha.
As plataformas se defendem pondo a culpa do excesso de uso no usuário, e claro que elas têm razão – e zero preocupação:
[30] escolher não usar aquilo que dá prazer fácil exige esforço.
Libertar-se do abuso das redes sociais é como fazer dieta: é muito mais difícil comer só um pedacinho de bolo do que nenhum
bolo. Desde quando o Rei Trump foi eleito, meu consumo diário de redes sociais é estritamente zero. Meus dias são tão mais
longos e ricos. Eu recomendo.
(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/suzanaherculanohouzel/2025/01/a-palavra-do-ano-de-2024-e-apodrecimento cerebral.shtml Adaptado. Acesso em 31 mar. 2025)
Com base nos trechos extraídos do texto, analise as afirmações a seguir, considerando o valor semântico dos conectivos destacados:
I. Em “A perda de tempo e oportunidades, no entanto, é certa e documentada.” (linha 6), o conector introduz uma ideia de contraste ou oposição com a expectativa sugerida anteriormente, pois relativiza a expressão “o ‘dano mental’ é presumido” (linha 6).
II. Em “Esse envolvimento mínimo, mas absolutamente necessário” (linha 21), a conjunção expressa adição e seu uso enfatiza e reforça a importância do envolvimento citado anteriormente.
III. Em “As plataformas se defendem pondo a culpa do excesso de uso no usuário, e claro que elas têm razão – e zero preocupação:” (linha 29), o conectivo destacado tem a função de acrescentar uma justificativa ou uma informação adicional, embora, nesse contexto, também ajude a construir uma ironia crítica ao indicar que as plataformas têm razão apenas no discurso, mas sem qualquer preocupação real.
IV. Em “é muito mais difícil comer só um pedacinho de bolo do que nenhum bolo” (linhas 31 e 32), o conector estabelece uma relação comparativa, contrastando dois níveis de dificuldade.
V. Na frase “Libertar-se do abuso das redes sociais é como fazer dieta” (linha 31), o conectivo estabelece uma relação de comparação, indicando que ambas as ações envolvem esforço e autocontrole frente ao prazer imediato.
VI. Em “Desde quando o Rei Trump foi eleito” (linha 32), o conector introduz uma oração com ideia de tempo, situando no passado o marco da mudança de hábito da autora.
Está correto apenas o que se afirma em:
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