Questão 1 - UVA Conhecimentos Gerais 2024
II
O francês Paul – misantropo devoto e excelente fabricante de
sinetes que, na despreocupada viagem de aventura pelo mundo,
encalhara em Sobral, costumava vaguear pelos ranchos de
[5] retirantes, colhendo, com apurada e firme observação, documentos
da vida do povo, nos seus aspectos mais exóticos, ou rabiscando
notas curiosas, ilustradas com esboços de tipos originais, cenas e
paisagens – trabalho paciente e douto, perdido no seu espólio de
alfarrábios, de coleções de botânica e geologia, quando morreu,
[10] inanido pelos jejuns, como um santo.
Um dia, visitando as obras da cadeia, escreveu ele, com
assombro, no seu caderno de notas: “Passou por mim uma mulher
extraordinária, carregando uma parede na cabeça.” Era Luzia,
conduzindo para a obra, arrumados sobre uma tábua, cinquenta
[15] tijolos. Viram-na outros levar, firme, sobre a cabeça, uma enorme
jarra d'água, que valia três potes, de peso calculado para a força
normal de um homem robusto. De outra feita, removera, e assentara
no lugar próprio, a soleira de granito da porta principal da prisão,
causando pasmo aos mais valentes operários, que haviam tentado,
[20] em vão, a façanha e, com eles, Raulino Uchoa, sertanejo hercúleo e
afamado, prodigioso de destreza, que chibateava em pitorescas
narrativas.
Em plena florescência de mocidade e saúde, a extraordinária
mulher, que tanto impressionara o francês Paul, encobria os músculos
[25] de aço sob as formas esbeltas e graciosas das morenas moças do
sertão. Trazia a cabeça sempre velada por um manto de algodãozinho,
cujas ourelas prendia aos alvos dentes, como se, por um requinte de
casquilhice, cuidasse com meticuloso interesse de preservar o rosto
dos raios do sol e da poeira corrosiva, a evolar-se em nuvens espessas
[30] do solo adusto, donde ao tênue borrifo de chuvas fecundantes,
surgiam, por encanto, alfombras de relva virente e flores odorosas.
Pouco expansiva, sempre em tímido recato, vivia só, afastada dos
grupos de consortes de infortúnio, e quase não conversava com as
companheiras de trabalho, cumprindo, com inalterável calma, a sua
[35] tarefa diária (...) para fazer jus à dobrada ração. – É de uma soberbia desmarcada – diziam as moças da mesma
idade, na grande maioria desenvoltas ou deprimidas e infamadas
pela miséria. – A modos que despreza de falar com a gente, como se
fosse uma senhora dona – murmuravam os rapazes remordidos pelo
[40] despeito da invencível recusa, impassível às suas insinuações
galantes. – Aquilo nem parece mulher fêmea – observava uma
velha, alcoveta e curandeira de profissão. Reparem que ela tem
cabelos nos braços e um buço que parece bigode de homem...
OLIMPIO, Domingos. Luzia-Homem
Luzia-Homem (1903), do sobralense Domingos Olímpio, é um romance de transição, ou seja, escrito em um século e publicado em outro.
Dessa forma, é esperado que nessa obra realista haja também as marcas do Naturalismo, estilo que aproximou a Literatura da Ciência. Assinale a opção que evidencia a presença do Naturalismo no texto.
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