Questão 5 - UPF Verão 2025
Regredir tecnologicamente também significa regredir civilizacionalmente?
Explosões de pagers e walkie-talkies no Líbano revelam uma miragem ilusória e um risco profundo
José Manoel Diogo
[1] As explosões recentes de pagers e walkie-talkies no Líbano, em ataques atribuídos a Israel, escancaram o abismo de uma
guerra que parecia buscar refúgio na simplicidade e acabou criando uma nova forma de pesadelo. Esse pensamento me
atravessou como um disparo silencioso, ecoando o desespero moderno em que a tecnologia já não é apenas um avanço, mas
uma armadilha que se refaz na simplicidade mais cruel.
[5] Pensemos juntos: retroceder para uma tecnologia mais arcaica, menos rastreável, como fez o Hezbollah, poderia
representar uma tentativa de reencontrar uma certa segurança, um refúgio? Talvez. Mas, ao que tudo indica, não há volta
possível quando o poder encontra meios de manipular até os aparatos mais rudimentares. Há aqui uma ironia letal. O pager,
aquele pequeno objeto que emitia bipes ansiosos nos anos 1990, transformou-se numa bomba nas mãos de inocentes, como
aconteceu (...) no Líbano. Até podemos querer acreditar que uma tecnologia mais simples nos protege, mas isso não passa de
[10] uma ilusão.
O retrocesso tecnológico, nesse caso, é como um retorno ao analógico que acaba resultando em um pesadelo digital,
disfarçado de nostalgia. Esta é a cruel realidade do poder: ele é capaz de transformar até as tecnologias do passado em
armadilhas para o presente.
Aí reside a questão central: regredir tecnologicamente é também regredir civilizacionalmente? Se a tecnologia define, em
[15] certa medida, o avanço da sociedade, o que significa retornar a um tempo anterior? A resposta que se coloca, depois de observar
episódios como esse, é que não há inocência no retrocesso. Ao tentar escapar da sofisticação dos drones e algoritmos,
o Hezbollah recorreu a dispositivos arcaicos, julgados mais seguros. Mas essa tentativa de fuga da modernidade colidiu com a
realidade nua e crua: até o que é obsoleto pode ser transformado em arma.
Mas o que nos pode intrigar mais é o impacto que esse retorno ao arcaico pode ter em outras esferas. Se começarmos a
[20] enxergar o retrocesso tecnológico como uma alternativa de segurança, o que mais poderíamos desconstruir?
Na educação, por exemplo, poderíamos imaginar um retorno às lousas e ao giz, sob a crença de que isso nos protegeria
das manipulações digitais. Mas, e se, tal como os pagers, essas ferramentas também se tornarem vulneráveis de outras
maneiras? Será que o retorno ao simples é a resposta ou estamos apenas nos enganando ao pensar que o passado era mais
seguro?
[25] Na saúde, a digitalização tem sido fundamental para salvar vidas. Mas, com o medo crescente de ataques cibernéticos,
poderíamos começar a voltar a métodos mais antigos, desprezando a precisão que as novas tecnologias oferecem.
Chegamos à conclusão inquietante: a regressão tecnológica, como no caso do Líbano, é uma miragem perigosa. Não há
retorno para um tempo mais simples. Essa ideia de que o antigo pode ser mais seguro carrega um risco profundo: o de inaugurar
uma nova era de descanso ilusório, na qual, ingenuamente, buscaríamos refúgio em ferramentas arcaicas.
[30] Esse movimento teria, sim, potencial para gerar uma descrença crescente na tecnologia moderna, criando brechas para
retrocessos em vários setores e abrindo caminho para novos modos de controle e manipulação.
E o que restaria, então? Talvez uma falsa sensação de segurança, um conforto ilusório no retorno a ferramentas obsoletas,
enquanto os verdadeiros mecanismos de poder permanecem intocados.
(Folha de São Paulo, Opinião, José Manuel Diego. Publicado em 21 set. 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jose-manuel diogo/2024/09/regredir-tecnologicamente-tambem-significa-regredir-civilizacionalmente.shtml / Adaptado. Acesso em 21 set. 2024)
Considerando os aspectos sintático-semânticos do texto, analise as assertivas a seguir:
I. Em “Aí reside a questão central: regredir tecnologicamente é também regredir civilizacionalmente?” (linha 14), os dois pontos são utilizados para introduzir uma catáfora, pois a informação que se segue esclarece qual é a questão apresentada.
II. Em “Pensemos juntos: retroceder para uma tecnologia mais arcaica, menos rastreável, como fez o Hezbollah, poderia representar uma tentativa de reencontrar uma certa segurança, um refúgio?” (linhas 5 e 6), os dois pontos aparecem antes de uma citação direta, indicando que o que se segue é uma explicação do que foi mencionado anteriormente.
III. As vírgulas que isolam a expressão “em ataques atribuídos a Israel” (linha 1) se justificam em razão de que isolam um aposto explicativo.
IV. “Na saúde, a digitalização tem sido fundamental para salvar vidas”(linha 25), se a vírgula fosse retirada, a correção gramatical seria mantida, uma vez que se trata de um adjunto adverbial curto deslocado.
V. Em “Essa ideia de que o antigo pode ser mais seguro carrega um risco profundo: o de inaugurar uma nova era de descanso ilusório” (linhas 28 e 29), os dois pontos são usados para indicar uma relação de causa e efeito, mostrando que o risco é consequência da ideia mencionada.
Está correto o que se afirma em:
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