Questão 15 - UPE SSA 3ª Fase - 1° Dia 2025
Texto 16
Me lembro de ter ouvido os médicos falarem que teria dificuldade para falar e me alimentar. Que teria que voltar sempre à cidade para ser acompanhada, fazer exercícios de fala. Mas não seria possível, não havia como deixar Água Negra, morávamos distante, não haveria maneira de nos deslocarmos por tantas léguas com tanta frequência. No hospital da cidade mais próxima não havia médico que soubesse fazer o tratamento.
Por isso me calei.
Passado muito tempo, resolvi tentar falar, porque estava sozinha me embrenhando na mesma vereda que Donana costumava entrar. Ainda recordo da palavra que escolhi: arado. Me deleitava vendo meu pai conduzindo o arado velho da fazenda carregado pelo boi, rasgando a terra para depois lançar grãos de arroz em torrões marrons e vermelhos resolvidos. Gostava do som redondo, fácil e ruidoso que tinha a ser enunciado. "Vou trabalhar no arado." "Vou arar a terra." "Seria bom ter um arado novo, esse arado está troncho e velho." O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada. Tentei outras vezes, sozinha, dizer a mesma palavra, e depois outras, tentar restituir a fala ao meu corpo para ser a Belonísia de antes, mas logo me vi impelida a desistir. Nem mesmo quando o edema se desfez consegui reproduzir uma palavra que pudesse ser entendida por mim mesma. Não iria reproduzir os sons que me provocavam desgosto e repulsa e ser alvo de zombaria para as crianças na casa de Firmina, ou para as filhas de Tonha.
VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019. p. 126-127.
O Texto 16 é um excerto da segunda parte da obra Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Nesse momento da narração, a personagem Belonísia tenta falar algumas palavras, mas se vê impedida pela ausência de sua língua, que perdeu por acidente na infância.
Há, nessa passagem, o uso de um recurso estilístico que marca uma oposição comparativa entre a deformação na fala da protagonista e a
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