Questão 1 - UPE SSA 3ª Fase - 1° Dia 2025
Texto 1
Fernando Venâncio: “A língua portuguesa não nasceu com os portugueses”
Linguista português desfaz preconceitos e parte da formação das palavras para falar sobre a construção do idioma
Por Marília Montchele
Em Assim nasceu uma língua: Sobre as origens do português, o linguista português Fernando Venâncio desafia a visão tradicional de que essa língua deriva diretamente do latim. Ele revela que ela é, na verdade, uma variação do galego, falada por pastores no noroeste da Espanha. Com uma prosa envolvente e análise crítica, Venâncio desmonta mitos que serviram a projetos nacionalistas ao longo dos séculos. Lançado no Brasil pela LeYa-da-Guaíba, o livro traz um prefácio do linguista Marcos Bagno, que antecipa surpresa e até indignação dos leitores brasileiros ao confrontarem essas novas ideias. [...] Com perspicácia e maestria, o autor expõe a verdadeira história da nossa língua, desafiando noções antigas e oferecendo uma nova compreensão sobre nossa herança linguística.
Seu livro, Assim nasceu uma língua, oferece uma perspectiva única sobre as origens e a evolução do português. O que o motivou a abordar esse tema de maneira tão abrangente e detalhada?
Eu formei-me como linguista nos anos de 1970, na Holanda, [...] e aos poucos descobri que me interessavam sobretudo as abordagens históricas: como a língua se desenvolveu, como atingiu esta ou aquela concreta conformação. Em suma, descobri-me historiador. E eu tinha, agora, essa grande história para contar, a de como, e onde, surgiu a língua portuguesa. Eu dava-me, também, conta de que tudo se passara bem diferentemente daquilo que nos tinham ensinado. E de que essa outra forma era, até, mais interessante.
O livro tem suscitado bastante interesse, especialmente pelas teses provocadoras que apresenta sobre as origens do português. [...] Pode nos explicar melhor essa ideia e o porquê de ela ser tão inovadora?
Essas teses provocatórias não são minhas na origem. Elas haviam sido lançadas pelos linguistas portugueses Ivo Castro e Esperança Cordeiro e pelo linguista brasileiro Marcos Bagno. Em traços largos: o português não foi criado em Portugal, surgiu mesmo bem antes de Portugal existir, e mais exatamente em território galego. O que eu fiz foi fundamentar linguística e historicamente essas descobertas.
Há uma tendência recente de abrasileiramento do vocabulário em Portugal, especialmente entre os jovens influenciados por youtubers brasileiros. Como o senhor observa esse fenômeno?
A influência do português brasileiro sobre o europeu não é um fenômeno recente. Ela já era sensível nos anos de 1980, quando se generalizaram em Portugal as telenovelas brasileiras. Os portugueses adotaram palavras como “bagunça”, “dica”, “fofoca” ou os verbos brasileiros de “curtir” ou “torcer”. Passaram também a introduzir uma pergunta com “será que” ou uma adversativa com “só que”. O que é novo é a grande audiência que conteúdos brasileiros do YouTube para a infância e a primeira adolescência vêm tendo. Isso leva ao emprego por crianças de léxico tipicamente brasileiro. Aparecem-me os exemplos de “grama” por “relva” ou “geladeira” por “frigorífico”. Mas estamos longe de cenários alarmistas que imaginam a miudagem portuguesa a falar “brasileiro”.
Quais são as expectativas para o futuro do português, tanto como uma língua global quanto em sua capacidade de se adaptar e evoluir?
A história do Português mostra que ele sabe adaptar-se com facilidade, e bons resultados, a circunstâncias novas e inesperadas. Ele superou os ardores do crescimento e apresenta-se, de rosto renovado, pronto para novos embates. Isso permite prever que brasileiros, africanos e portugueses continuarão a dispor dum idioma rico e dúctil, sem receio das variedades e mesmo das diferenças.
Por fim, como se sente sendo um “derrubador de mitos” sobre a língua portuguesa?
Esse papel de “derrubador de mitos” não foi programado, e menos ainda o vejo como missão. Mas não escondo que me dá algum prazer. Oxalá surjam sempre, onde eles forem necessários, tais “derrubadores”.
Disponível em: https://veja.abril.com.br/educacao/. Acesso em: 12 ago. 2024. Adaptado.
Como linguista, a visão de Fernando Venâncio sobre a história do português é baseada em fatos, em referências científicas.
Ao defender a ideia de que a língua tem um caráter essencialmente adaptável às mudanças, uma estratégia do linguista que busca imprimir uma pretensa imparcialidade em seu olhar científico é o/a
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