Questão 15 - UEG Medicina 2025/2
Leia os textos para responder à questão.
Texto 01
[1] Minha mãe entrou escoltada numa sala que parecia a de uma repartição pública. Tiraram o capuz da “cliente”. Era
assim que chamavam os presos. Depois do interrogatório, viravam “pacientes”. A repressão política em 1971 estava
metódica, com um organograma padronizado em todos os estados. Quem prendia não era quem interrogava ou
torturava. No início, não interrogavam sobre o passado. A prioridade era o presente e o futuro. Se o preso tinha
[5] treinado em Cuba, na China ou na Argélia, o matavam em “campo”, na rua. Ele “viajava”, como se referiam. Em 1971,
nem era mais preso. Era um “cubano”, diziam. Não queriam correr o risco de ter que trocá-los dias ou meses depois
por um diplomata sequestrado. E foram quatro ao todo: um cônsul japonês, o embaixador americano, o alemão e o
suíço, Giovanni Bucher.
Bucher foi libertado quatro dias antes da prisão dos meus pais. Tinha sido sequestrado no dia 7 de dezembro de
[10] 1970 pela VPR a caminho da embaixada no Rio, e levado para Rocha Miranda, subúrbio carioca. A organização que o
sequestrou exigiu setenta presos políticos em troca. O governo não cedeu. O impasse durou até o dia 16 de janeiro. A
lista inicial foi recusada. [...] Meu pai sabia desse sequestro. Meu pai sabia intimidade desse sequestro? Quando
noticiavam pela TV a demora e o sofrimento que o diplomata devia estar passando nas mãos de terroristas, ele
debochava:
[15] – Tá nada, está se divertindo adoidado, fumando seus charutos.
Minha mãe reparou: foi a primeira e única vez que meu pai falou de algo que ocorria nas entranhas da luta
armada. Foi a primeira e única vez que deixou escapar uma observação que comprometeria a sua segurança e a
nossa. Será que ele foi preso por causa disso? Comentou que o grandalhão Bucher fumava charutos e jogava cartas
no cativeiro? Tinha microfones em casa, espiões nos bares, no escritório dele?
[...]
[20] Minha mãe, na prisão, fez um exercício de memória para tentar entender ou encontrar alguma pista de por que
ela, minha irmã de 15 anos, a Eliane, e o meu pai foram detidos. Ele poderia ter dito de brincadeira, piadista que era,
um gozador, a tal frase sobre o embaixador suíço. Prenderam um gozador?
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. p.135-136. (Adaptado).
Texto 02
[1] Hilda [...] veio até a porta do nosso quarto para dizer, confusa e embaraçada, que havia uns homens querendo
falar comigo. O sentimento que me dominou, ao chegar à sala e encontrar os policiais, foi de impaciência: vi-me
diante de um incômodo que prometia durar um bom par de horas. Havia algo estranho no modo nervoso como
aqueles homens sorriam, e a amabilidade exagerada não deixava de trair uma promessa de agressão. [...]. Eles
[5] diziam que as autoridades militares queriam me fazer algumas perguntas, e eu, muito mais ingênuo do que eles
podiam imaginar, acreditei. Parecia-lhes pouco provável, no entanto, que alguém levasse tal eufemismo ao pé da
letra, e, enquanto eu tentava conseguir detalhes sobre o que ia se passar, eles iam abandonando relutantemente a
expectativa de que talvez eu reagisse a uma prisão que nem sequer sabia que estava se efetuando. Um deles, então,
fez uma sugestão que primeiro me pareceu estapafúrdia mas logo me encheu de medo: “É melhor levar sua escova
[10] de dentes”. Ainda tentei pedir explicações para esse conselho, mas eles deram mostra de que já não queriam perder
tempo.
[...]
É claro que nem [Gilberto] Gil nem eu [Caetano Veloso] imaginávamos que seríamos presos. Não havia
expectativa de que nada de grave pudesse acontecer conosco. Exceto o aviso feito pelo humorista Jô Soares e
aquela profecia saída da boca de um conhecido suspostamente em transe e que nos tinha sido relatada meses antes
[15] por Roberto Pinho (profecia esta que afinal se revelou assustadoramente precisa quanto às datas e às
circunstâncias), nós não tínhamos muito por que pensar que os militares queriam nos prender. Estávamos tão
habituados a hostilizações por parte da esquerda, éramos tantas vezes acusados de alienados e americanizados,
que, quando me vi diante daqueles policiais, imaginei que estavam nos levando para uma conversa com algum oficial
de São Paulo, o qual nos trataria como rapazes interessados apenas em divertir o público, e, no máximo, exigiria
[20] explicações sobre a nossa participação na famosa passeata dos 100 mil. Essa passeata contara com a quase
totalidade da classe artística brasileira, de modo que não seria difícil explicar nossa adesão como resultado de uma
pressão natural de grupo.
VELOSO, Caetano. Verdade tropical. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 350-351. (Adaptado).
Texto 03
Em 02 de março de 2025, o filme Ainda estou aqui, dirigido por Walter Salles, foi premiado com o Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional. Trata-se da primeira produção cinematográfica brasileira a conquistar o prêmio, além de contar com mais duas indicações: Melhor Atriz e Melhor Filme. A produção é uma adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva, de mesmo título, publicado em 2015. Ambas as obras narram a trajetória de vida de Eunice Paiva, após o desaparecimento de seu esposo, Rubens Paiva, em janeiro de 1971, durante a Ditadura Militar.
Rubens Paiva era um ex-deputado trabalhista, que teve seu mandado cassado após o golpe de 1964. Em 20 de janeiro de 1971, foi sequestrado por militares, enquanto estava em casa com a família. Foi torturado por dois dias e assassinado em seguida, se tornando mais uma vítima da violência de Estado praticada pelo regime que governou o país entre 1964 e 1985. Em 1996, depois de sancionada a chamada Lei dos Desaparecidos, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, Eunice Paiva finalmente conseguiu a certidão de óbito do marido. A Lei n.º 9.149, de 4 de dezembro de 1995, garantiu às famílias de pessoas desaparecidas, que estiveram envolvidas em alguma atividade política durante o regime militar, o reconhecimento oficial da morte de seus entes.
Tanto o livro quanto o filme tematizam um momento doloroso e terrível de nossa história. Nesse sentido, vemos o quanto as artes podem constituir elementos fundamentais para o nosso contínuo processo de formação social, cultural, política e histórica, desempenhando diversos papeis. Elas constituem espaços de reflexividade, onde nossa sociedade, por meio de diversas linguagens, pode se ver, se questionar, se formar, se transformar.
Os textos 01 e 02 apresentam similaridade na forma discursiva e literária, sendo construídos a partir de uma mesma tipologia textual predominante.
Nesse sentido, verifica-se que ambos os textos
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