Questão 13 - UEG Medicina 2025/2
Leia o texto para responder à questão.
O senso comum e o estudo científico da língua
[1] A língua é um objeto de estudo científico, mas é também, e de um modo muito mais amplo, um fenômeno
sociocultural, uma instituição, uma coisa sobre a qual toda e qualquer pessoa se acha no direito – legítimo – de falar,
rebater, discutir. A linguista britânica Deborah Cameron afirma que nós, seres humanos, não só falamos línguas como
também falamos sobre as línguas que falamos. Ela deu a esse fenômeno sociocultural o nome de higiene verbal.
[5] Em todos os campos do conhecimento, sempre tem existido um embate entre as ideias que recebem o rótulo de
científicas e as que pertencem ao senso comum. Dizemos que um enunciado tem caráter científico quando ele é
resultado de investigação empírica (isto é, com dados da realidade), feita segundo metodologias controladas, com
levantamento de hipóteses, testagem dessas hipóteses, com confirmação ou negação de seus postulados e
reelaboração posterior dos princípios hipotetizados. Por isso, o conhecimento assim obtido é sempre provisório, pode
[10] ser criticado, refeito, de modo a fazer avançar o estado do saber atual de determinada área de investigação. A história
de qualquer ciência é a história de suas reformulações, do abandono de teorias e métodos por outras teorias e outros
métodos. Justamente por tentar seguir princípios e metodologias bem delineadas é que os postulados são, com
frequência, contraintuitivos. Como assim?
A intuição é uma poderosa ferramenta cognitiva; é a “faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas,
[15] independentemente de raciocínio e análise” (Houaiss). É uma estratégia de sobrevivência da espécie: intuir é
pressentir, antever, com base na experiência vivida ou em informações dadas por nossos sentidos. Contudo, como
bem define o dicionário, é algo feito “independentemente de raciocínio ou de análise”. E é aí que a ciência entra em
ação, porque o método científico só pode receber esse rótulo – científico – quando se vale do raciocínio e da análise!
A força das ideias preconcebidas milenarmente é tão grande que, mesmo depois de aceitos amplamente os
[20] postulados científicos, conservamos na linguagem aquelas noções errôneas: até hoje, por exemplo, dizemos que o sol
“nasce no Leste” e se “põe no Oeste”, embora saibamos racionalmente que é o movimento de rotação da Terra que
provoca o fenômeno de alternância do dia e da noite. Ideias assim são chamadas de estereótipos, do grego stéreos,
que significa “sólido tridimensional”. As ideias estereotipadas são as que se cristalizam e ficam sólidas como rocha.
Crenças arraigadas ao longo do tempo, estereótipos, superstições, mitos e preconceitos formam um conjunto de
[25] ideias que recebem o nome coletivo de senso comum. Ou seja, é uma nebulosa de opiniões que resistem ao tempo e
a todo tipo de reflexão crítica, porque, de tão impregnadas no imaginário coletivo, acabam sendo consideradas como
“naturais”.
Sendo uma parte tão fundamental do ser humano (individual e social), a linguagem não tinha como escapar das
investidas do senso comum. E o senso comum linguístico, de um modo poderosíssimo, resiste bravamente às críticas
[30] e análises das ciências da linguagem. Muitas ideias falsas vigoram na maioria das sociedades, sobretudo das
letradas, a respeito de língua. Seguem alguns exemplos:
o Algumas línguas são naturalmente mais primitivas, toscas e pobres do que outras.
o As palavras que as pessoas usam e que não estão no dicionário simplesmente não existem.
o O português é uma das línguas mais difíceis do mundo.
[35] o Quem não sabe ler nem escrever não pensa direito.
Por mais “naturais” que possam parecer, todas essas crenças são infundadas e têm sido desconstruídas por
linguistas, antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros cientistas desde a segunda metade do século XIX. Elas
continuam vivas, porém, no senso comum e muitas vezes, até infelizmente, onde deveriam ser denunciadas e
combatidas: no ensino de língua materna e/ou de línguas estrangeiras.
BAGNO, Marcos. Língua, linguagem, linguística: pondo os pingos nos ii. São Paulo: Parábola, 2014. p. 27-30. (Adaptado).
É ideia defendida no texto:
![[Marketing] Primeira Questao](https://storage.estuda.com.br/banners/0_6e09902a8e108d73cce3c7b9272eb1de_simulado_home_treineiro_desk.png)