Questão 24 - MULTIVIX Medicina 2021
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Sorria, você está no Butão
O país mais isolado do mundo rasga dinheiro em nome do bem-estar social e institui um novo elemento na economia, a Felicidade Interna Bruta
Por Raquel Cozer
Você decide: prefere ser chefe de multinacional, com uma conta bancária que não sai dos 6 dígitos e vários carros na garagem, ou… ser feliz? Bom, perguntar isso para alguém é ingênuo. Um sujeito pode muito bem viver de sorriso estampado na cara sem nunca ter saído do cheque especial. Já se você faz uma pergunta equivalente não a uma pessoa, mas a um país, a história é outra. Do ponto de vista de uma nação – ou seja, do de quem administra uma – a ideia de que a felicidade vem antes da riqueza simplesmente não faz sentido. Quer dizer: não fazia.
Existe, sim, um lugar onde a ideia da busca pela “alegria do povo” é uma prioridade maior do que o crescimento econômico. Uma prioridade oficial, diga-se. Esse lugar é um país quase anônimo, pouco maior que o estado do Rio de Janeiro, aninhado nas montanhas do Himalaia. Bem-vindo ao reino do Butão.
Foi lá que, em 1972, um reizinho de 17 anos que acabava de assumir o trono cravou: “Ei, o Produto Interno Bruto não é mais importante que a ‘felicidade interna bruta’”. Era Sua Majestade Jigme Singye Wangchuck, que, apesar de adolescente, não estava para brincadeira e pôs seus assessores para bolar uma política inédita no mundo, uma economia de cabeça pra baixo.
Ou muito pelo contrário: “O Butão devolve ao chão os pés da lógica ponta-cabeça do desenvolvimento”, diz o economista alemão Johannes Hirata, da Universidade de Gallen, na Suíça, estudioso do papel da felicidade em políticas públicas. De trocadilho hippie, “felicidade interna bruta” virou um parâmetro de verdade, com direito a sigla (FIB) e tudo. “A filosofia da FIB é a convicção de que o objetivo da vida não pode ser limitado à produção e consumo seguidos de mais produção e mais consumo, de que as necessidades humanas são mais do que materiais”, diz Thakur S. Powdyel, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Educacional da Universidade Real do Butão.
Para suprir essas “necessidades não materiais”, o conceito da FIB prega 4 diretrizes: desenvolvimento econômico sustentável, preservação da cultura, conservação do meio ambiente e “boa governança”. Não é nada diferente das coisas que você ouve nos horários políticos da vida, certo? Sim, mas no Butão o buraco é mais embaixo. Para o bem e para o mal.
Dinheiro? Tô fora
A Felicidade Interna Bruta não é uma lei escrita, mas um ideal que vem norteando as decisões do governo nos últimos 30 anos. Por exemplo: a exportação de madeira poderia encher os cofres públicos, mas, à luz da FIB, ficou estipulado que 60% do território permaneça coberto por florestas originais. De onde tirar dinheiro, então? De uma carta na manga, ou melhor, do Himalaia. “O Butão é favorecido por rios que nascem nas montanhas. A geração de energia hidrelétrica se tornou um poderoso engenho de crescimento econômico, e sem desalojar pessoas nem danificar o ambiente”, diz Powdyel.
Ambiente que faz do Butão um dos países mais bonitos do mundo, com rios de água cristalina, florestas coloridas e fauna com direito a tigres, elefantes, rinocerontes e pandas, o país é chamado de “último éden” ou “Shangri-lá da vida real”, numa referência ao paraíso inventado pelo romancista inglês James Hilton em seu livro Horizonte Perdido (1933). Um paraíso que, como o Butão, fica no Himalaia.
Com tantas credenciais, o país poderia virar um dos maiores polos turísticos do mundo. Mas não. O turismo é limitado para não prejudicar a cultura nem o meio ambiente. “Existe uma espécie de consumação mínima, que inclui hospedagem, alimentação, guia e transporte. Sai uns 300 dólares por dia”, diz Paulo Lima, editor da revista Trip, que foi um dos poucos turistas que já ganharam autorização para visitar o país. Em 2005, foram 13 mil. Para comparar: Porto Seguro, na Bahia, recebeu cerca de 1 milhão.
Outra medida que feriu os cofres públicos em nome da FIB veio em 2004. Foi quando o Butão ganhou os jornais do mundo inteiro ao se tornar o primeiro país a banir o cigarro. Banir mesmo: a venda de tabaco virou crime. Tudo para “proteger as gerações presentes e futuras de seu efeito devastador”. Está certo que daí nasceu um mercado negro, mas o governo acredita que, restringindo a oferta, ajuda as pessoas a parar de fumar. E, com isso, o país abriu mão de uma fonte de receita garantida. “Os cigarros fazem parte do setor de demanda inelástica, aquele em que a procura não cai com o aumento do preço. Se você tributa o tabaco, o preço aumenta, mas as pessoas não deixam de fumar”, diz o economista Siegfried Bender, da USP. Ou seja, vender cigarro é um ótimo negócio. Mas, reza a FIB, o “bem-estar” vem antes do dinheiro. (...)
Para muitos, decisões como essa do antitabagismo não servem para nada, a não ser tirar da população o direito de escolha. “Isso é uma invasão enorme da liberdade. Felicidade é algo individual. Um governo interferir na busca por ela é acreditar que o cidadão não tem capacidade de tomar decisões para seu próprio bem”, diz a economista Patrícia Carlos de Andrade, diretora do Instituto Millenium, centro de pesquisa de economia liberal em São Paulo. (...)
Disponível em: https://super.abril.com.br/cultura/sorria-voce-esta-no-butao/ Acesso em 14 de setembro de 2020. Texto adaptado.
É possível compreender a partir da leitura do texto que:
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