Questão 2 - UniRV RIO VERDE 2025/1
Um dia, de manhã, D. Maria Soares, que estava em casa, descansando de um baile para ir a outro, foi procurada por D. Carlota, companheira antiga de colégio, e sócia agora da vida elegante. Considerou isso um benefício do acaso, ou antes um favor do céu, com o fim único de lhe matar as horas aborrecidas. E merecia esse favor, pois de madrugada, ao voltar do baile, não deixou de cumprir as rezas do costume, e, logo à noite, antes de ir para o outro, não deixará de persignar-se.
D. Carlota entrou. Ao pé uma da outra pareciam irmãs; a dona da casa era, talvez, um pouco mais alta, e tinha os olhos de outra cor; eram castanhos, os de D. Carlota pretos. Outra diferença: esta era casada, D. Maria Soares, viúva: ambas possuíam alguma coisa, e não chegavam a trinta anos; parece que a viúva contava apenas vinte e nove, posto confessasse vinte e sete, e a casada andava nos vinte e oito. Agora, como é que uma viúva de tal idade, bonita e abastada, não contraía segundas núpcias é o que toda a gente ignorou sempre. Não se pode supor que fosse fidelidade ao morto, pois é sabido que ela não o amava muito nem pouco; foi um casamento de arranjo. Talvez não se pode crer que lhe faltassem pretendentes; tinha-os às dúzias.
Você chegou muito a propósito, disse a viúva a Carlota; vamos falar de ontem? Mas que é isso? que cara é essa?
Na verdade, a cara de Carlota trazia impressa uma tempestade interior; os olhos faiscavam, e as narinas moviam-se deixando passar uma respiração violenta e colérica. A viúva insistiu na pergunta, mas a outra não lhe disse nada; atirou-se a um sofá, e só no fim de uns dez segundos, proferiu algumas palavras que explicaram a agitação. Tratava se de um arrufo, não briga com o marido, por causa de um homem. Ciúmes? Não, não, nada de ciúmes. Era um homem, com que ela antipatizava profundamente, e que ele queria fazer amigo da casa. Nada menos, nada mais, e antes assim. Mas por que é que ele queria relacioná-lo com a mulher?
(Disponível em: contobrasileiro.com.br/o-caso-do-romualdo-conto-de-machado-de-assis/).
Assinale V (verdadeiro) ou F (falso) para a alternativas abaixo, de acordo com o texto:
( ) Predomina no texto a tipologia narrativa, porém, no trecho ?Na verdade, a cara de Carlota trazia impressa uma tempestade interior; os olhos faiscavam, e as narinas moviam-se deixando passar uma respiração violenta e colérica?, observa-se uma passagem descritiva que tem a função de revelar o estado emocional da personagem.
( ) A viúva D. Maria Soares, pelo que é sugerido no texto, parece ter vida social intensa, mas mantém-se fiel às tradições religiosas de seu tempo, pois executa atos religiosos tanto na volta do baile como antes dele.
( ) O motivo da irritação de Carlota eram os ciúmes do marido em relação a um homem com quem ela antipatizava.
( ) No trecho "Agora, como é que uma viúva de tal idade, bonita e abastada, não contraía segundas núpcias é o que toda a gente ignorou sempre", observa-se uma interferência do narrador fazendo um comentário paralelo à trama, o que o torna um narrador em primeira pessoa.
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