Questão 23 - UFG Matutino 2025/2
Leia o Texto para responder à questão.
Choveu demais, você sabe. A umidade junta a soja em blocos e os grãos não escoam, entopem os dutos, o silo para de funcionar. Então é preciso subir a montanha de grãos e andar por cima dela, empurrando com as botinas até que os grumos se soltem. Vão os três, você e seus dois companheiros. No silo, você é o primeiro a descer a escada, o primeiro a entrar e sentir o ar viciado, o cheiro da fermentação, o calor insuportável. Não é fácil respirar aqui dentro, mas os outros estão logo atrás, você pode ouvi-los. Não que a presença deles mude alguma coisa, mas é reconfortante ter companhia nesse ambiente, onde tudo parece pesar mais. A montanha é gigantesca, quatro mil toneladas de soja, foi o que disseram, enchem mais de cem carretas. As paredes de metal estalam de vez em quando, estão quentes e ninguém quer que o desentupimento seja demorado. Pensa no jogo, não admitiu para os companheiros, mas queria ter uma parabólica para ver os gols assim como os outros. Quem sabe trabalhando muitos domingos? Precisará beber menos, sair menos com os amigos, evitar o rio. Ainda se desse para tomar banho, mas não, você só ficava lá, na beira, ouvindo música alta e gastando dinheiro com cigarro, petisco e bebida. Quantas vezes a mãe já não disse que essa vida é malsã? Que o melhor é você trabalhar duro, terminar os estudos, pensar em um emprego na cidade. Mas será? Em ritmo compassado, você continua a pisar os grãos, e pisa, e pisa. (...) É a soja que importa. Vem à mente a imagem das plaquinhas que viu à beira da estrada, variedade CP4 EPSPS, muito embora você não saiba o que isso significa. É coisa do dono da fazenda, essa gente tem manias demais. Conforme pisa, os blocos aos poucos vão se desprendendo, os grãos voltam a correr uns sobre os outros. Feito correntes de água, fluem. Você olha para o lado, cadarços de suor saem de sua testa e pingam sobre a montanha, os outros dois também suam, fazem uma piada qualquer, riem. E é nesse instante, nesse átimo de riso, que os grãos desaparecem sob seus pés. Não, não são os grãos que desaparecem. É você que afunda, submerge no mar de soja feito um palito, só a cabeça fica de fora. Quando se dá conta do que está acontecendo, grita, se debate, procura um ponto de apoio para os pés e não encontra.
Os grãos são muito pesados e quanto mais você se mexe mais afunda. Os companheiros acorrem em sua direção, tentam agarrá-lo por baixo dos braços, tentam puxá-lo pela cabeça, tentam de tudo, mas nada funciona. Às pressas, os dois se encaminham para a saída do silo, gritam por socorro. Ei, vocês vão me deixar aqui? Eles deixam e agora você está sozinho, pensando em como os companheiros deviam estar com medo de afundar também. Com o cheiro mortiço da fermentação muito perto das narinas, você tem certeza de que agora acabou, afundará de vez a qualquer momento. Mas calma. O pé direito, isso, o pé direito encontra um pequeníssimo ponto de apoio. É a marca da solda na parede do silo. Nela, você concentra toda a energia para manter o corpo à flor dos grãos. Tudo dói, principalmente o peito. A soja esmaga. Onde estão eles que não voltam? Socorro! Você grita para ninguém.
TORT, Paulliny. Má Sorte. Erva Brava. São Paulo: Fósforo, 2021. p. 30-36.
Com as ocorrências de discurso indireto livre, ficamos sabendo que Ezequiel
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