Questão 38 - UNIJUI Medicina 2024
Fragmento de texto literário
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo se a luz loura e tenra da aurora que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um fartum(1) acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azulados pelo anil, mostravam a palidez grisalha e triste feita de acumulação de espumas secas.
Entretanto das portas surgiram cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes como marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite, a pequenada cá fora traquinava já e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam(2) sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos saíam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se(3) à luz nova do dia.
Daí a pouco em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do pescoço; os homens, esses não se preocupavam em molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias. As crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.
(1) – mau cheiro; (2) – causar polêmicas; (3) – sacudir o pó.
Leia atentamente as assertivas sobre o texto em es tudo:
I. O fragmento faz parte do romance Naturalista O Cortiço, escrito por Aluísio de Azevedo.
II. O foco narrativo está em 3a pessoa, narrador observador, uma vez que apenas descreve o que observa.
III. É bastante comum nos romances naturalistas a apresentação de personagens dominados pelos instintos. No texto em estudo não só as personagens são seres sensitivos. O autor transforma também o leitor em um ser sensitivo, tanto pela audição como em “ouviam-se amplos bocejos”, “as xícaras a tilintar”; quanto pela visão como em “das portas surgiam cabeças”; ou pelo olfato “o cheiro quente de café”.
IV. Na obra O Cortiço percebe-se a humanização de animais como em “os louros, à semelhança de seus donos, cumprimentavam-se ruidosamente”. Pode-se afirmar ainda que o próprio cortiço é um personagem.
A alternativa correta é:
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