Questão 2 - CESMAC Dia 1 2025/2
CRÔNICA: PROMESSAS ANGELICAIS
CONTO OU NÃO CONTO? Pois bem, digo. Neste ano prometo perder a barriga. Posso até visualizar o sorriso descrente de quem estiver lendo estas bem traçadas linhas. Falo da minha barriga há tempos. Prometer, nunca prometi.
O caso é o seguinte: todo final de ano enfio o pé na jaca. Vou a festas. Devoro pernis, bacalhoadas, tênderes, arroz com passas, lentilha com linguiça (a lentilha é para dar sorte, a linguiça porque é bom mesmo). Esbaldo-me como se estivesse próximo do Juízo Final. Desta vez, foi pior ainda. Afinal, havia boa possibilidade de que o Juízo Final acontecesse. Desde criancinha ouço falar nisso. Para que fazer regime, se o mundo podia acabar no réveillon? O resultado é visível: minha barriga ultrapassou todos os limites. Seja dita a verdade. A gula é o único pecado que vem com o castigo junto. Fiz outras promessas. Uma delas é fugir de tudo que é "alternativo". Passei as últimas décadas reverenciando essa palavra. Cada vez que comia um prato de broto de feijão em um restaurante "alternativo", eu me sentia mais saudável. Quantas vezes tomei suco de couve pela manhã? Confesso: até macrobiótica tentei. Tudo começou quando estive em um restaurante do tipo. O dono me garantiu que se tornara um homem equilibrado e sem ansiedades. Passei dez dias comendo arroz integral. Depois dessa fase radical, incluí bardana e peixe no cardápio. No final do primeiro mês tive uma inequívoca experiência extra-sensorial. Estava deitado, de olhos abertos, quando um hambúrguer-salada flutuou na minha frente. Estiquei os maxilares, pronto para abocanhar a delícia. Ao morder, quase perdi a língua. A visão etérea do hambúrguer se desfez. Saí pela madrugada atrás de uma lanchonete. Comi três hambúrgueres e quase fui parar no hospital. Recentemente li uma reportagem sobre as propriedades do dry martíni. Sim, ele é antioxidante. Combate os radicais livres. Pesquisa científica. E o vinho tinto? É bom para o coração, dizem. Enquanto eu comia bardana e tomava chá de jasmim, os desregrados é que se davam bem! Sinto arrepios ao ouvir falar em “alternativo”. Prometo tirar a diferença neste milênio.
Vou ler todos os romances policiais e ouvir as músicas bregas a que tenho direito. O caso é que adoro um bom policial, mas meus amigos vivem dizendo que um intelectual deveria estar se abastecendo de livros mais sérios. E sou louco por boleros. Quem vai a minha casa mexe em meus CDs e suspira. Dizem que não há nada que preste. Não há. Mas eu gosto. E se eu gosto, presta. Pelo menos para mim. Fica mal para um intelectual, eu sei. Talvez eu desista de ser intelectual, mas não dos boleros. [...]
Finalmente, eis minha última promessa. É séria. Quero perder o ranço de esquerda. Passei toda a minha vida analisando cada fato dentro do seu contexto. Arre! Cada vez que via um mendigo, decidia não ajudar porque o problema, afinal, é da sociedade como um todo. Da distribuição de renda. Do... Se explicasse tanta responsabilidade social ao pedinte, acho que levaria uns tapas. Outro dia, no semáforo, apareceu uma senhora com um bebê. Dei a esmola e me senti bem. Pronto. Que teoria resolveria a vida dela?
Com tudo isso, eu me sentirei um anjo. O anjo carrasco. Soa bem. Eu gosto. Quem sabe?
Disponível em: https://armazemdetexto.blogspot.com/2023/12/cronica-promessas-angelicais-walcyr.html?m=1. Acesso em: 14 abr. 2025.
Dadas as afirmativas, considerando-se as ideias do texto,
I. Após tentar uma dieta alternativa, o autor do texto virou vegetariano.
II. Na crônica, a última promessa feita pelo autor foi submeter-se a uma experiência extra-sensorial.
III. A promessa mais ressaltada pelo autor, no início da crônica, foi evitar alimentos alternativos.
IV. Estar de dieta é o motivo pelo qual o autor do texto decide não fazer regime no fim do ano mencionado.
V. No término da crônica, a atitude do autor em relação ao rótulo “alternativo” é de aceitação.
verifica-se que está/ão correta/s apenas
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