Questão 1 - CESMAC Dia 1 2024/1
A vida futura, de Sérgio Rodrigues
Tomei conhecimento do livro A vida futura, de Sérgio Rodrigues, ao ler a belíssima resenha crítica que Ana Cristina Braga Martes publicou na revista “Quatro cinco um”. O texto de Ana é uma daquelas resenhas críticas que torna a leitura do livro comentado imediatamente obrigatória. Corri até uma livraria perto de casa. O livro de Sérgio Rodrigues (editado pela Companhia das Letras) estava lá. E tenho certeza que o livro estava me esperando. Li as 166 páginas de uma sentada, ardente na mais escaldante febre literária, como teria dito Otto Lara Resende. É um romance histórico invertido, o passado vem para o futuro, e não o futuro volta para o passado.
A vida futura é um romance que tem como fio condutor uma volta de Machado de Assis e de José de Alencar ao Rio de Janeiro, em 2020. Saem das nuvens e pousam no interior de uma loja da Rua do Ouvidor, o Magazine Elegância. Estão em forma de espírito, isto é, se espíritos têm formas. Não sei se o magazine mencionado no livro de fato existiu. Lembrei-me do Magazine Royal, que ficava no Largo de São Francisco, e que foi destruído por um incêndio em 1943. [...]
Machado e Alencar voltam para a vida vivente do Rio de Janeiro, alarmados com a notícia de que uma professora universitária estava adiante de um projeto de reescrita de todos os clássicos, simplificando-os para o leitor contemporâneo. É hilariante a discussão em torno de “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, de Memórias póstumas de Brás Cubas. Os emendadores dos clássicos não entendiam o que significava “legado”. Alguém propôs “herança”, ainda que a troca suscitasse um problema de classe e de exploração. [...]
Sérgio Rodrigues moteja com a escrita, escreve como Machado (consegue), divide os capítulos como Machado o fazia em sua última fase. Pontua como Machado. [...] A empreitada da escrita na forma machadiana é difícil, e há horas em que há problemas com a verossimilhança. Machado não usaria com naturalidade a expressão “material sintético”. No entanto, o ápice da leitura dá-se justamente nesses momentos, nos quais o leitor duvida da possiblidade de ser Machado efetivamente o narrador. Há uma permanente colagem de textos, excertos e passagens. O que é real? Propondo o retorno dos escritores ao Rio contemporâneo, o autor nos prega a mesma peça que Machado nos pregou em Memórias póstumas de Brás Cubas.
Há uma retomada de temas antigos, sem nenhuma concessão ao anacronismo, a exemplo do escravismo em José de Alencar, ao suposto (e tão falado) triângulo amoroso entre Machado, Alencar e sua esposa, Georgina Augusta Cochrane. Uma ligação explorada por Humberto de Campos, para quem a semelhança entre Machado e Mário de Alencar não deixaria dúvidas da traição. Não tenho provas. E não caio nessa de que evidências bastam. Esse postulado, de que bastam indícios, que é odioso, a meu ver, subverteu nosso processo penal.
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Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy.
Disponível em: https://www.conjur.com.br/2023-jan-15/vida-futura sergio-rodrigues. Acesso em: 9 out. 2023. Adaptado.
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