Questão 59 - PAS - UFLA 1 Etapa 2023-2025
Leia a lira abaixo, extraída da segunda parte do livro Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga, para responder à questão.
Lira XV
Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
Fui honrado Pastor da tua aldeia;
Vestia finas lãs, e tinha sempre
A minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
De mor rebanho ainda ser o dono;
Prezava o teu semblante, os teus cabelos
Ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo
Além de um puro amor, de um são desejo.
[...]
Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,
Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;
Por essas brancas mãos, por essas faces
Te juro renascer um homem novo;
Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,
Amar no Céu a Jove, e a ti na terra.
Fiadas comprarei as ovelhinhas,
Que pagarei dos poucos do meu ganho;
E dentro em pouco tempo nos veremos
Senhores outra vez de um bom rebanho.
Para o contágio lhe não dar, sobeja
Que as afague Marília, ou só que as veja.
Senão tivermos lãs, e peles finas,
Podem mui bem cobrir as carnes nossas
As peles dos cordeiros mal curtidas,
E os panos feitos com as lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
Por mãos de amor, por minhas mãos cosido.
Nós iremos pescar na quente sesta
Com canas, e com cestos os peixinhos:
Nós iremos caçar nas manhãs frias
Com a vara envisgada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
Reputa o varão sábio, honesto e santo.
[...]
Quando passarmos juntos pela rua,
Nos mostrarão c’o dedo os mais Pastores;
Dizendo uns para os outros: “Olha os nossos
“Exemplos da desgraça, e são amores”.
Contentes viveremos desta sorte,
Até que chegue a um dos dois a morte.
GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000301.pdf. Acesso em: 27 jul. 2021.
Em relação ao poema Marília de Dirceu, de Gonzaga, leia as proposições a seguir:
I - Apesar do efeito de simplicidade perceptível na lira XV acima, o poema em seu todo é figurado, graças à própria natureza da poesia de inspiração pastoral, que pressupõe uma visão alegórica da vida.
II - No poema, a coloquialidade da expressão do eu lírico corresponde à simplicidade da alegada condição social do pastor da convenção árcade.
III - O poema faz confluir a tradição clássica pastoral e o gosto pela naturalidade da expressão, próprio do século XVIII, momento de entusiasmo pelo “homem natural” teorizado por Rousseau.
Assinale a alternativa CORRETA.
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